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De como a estafada política vai à dança…

Primeiro foi o TC que anunciou que iria anunciar. Posicionaram-se os dançadores para o corridinho. Foi vê-los iniciarem o ir e vir para o Palácio Ratton. Televisões a postos, microfones em riste, comentadores nos estúdios, e a música nunca mais saía! Ao romper das 21h00 lá ouvimos, finalmente, que normas do OE o TC tinha chumbado. E quase caiu o Carmo e a Trindade. Uns que sim, que era o que se esperava, outros que não, que era absoluta irresponsabilidade, outros ainda que nem por isso. E assim terminou aquela noite de sexta-feira.

Maria Helena Magalhães
17 Abr 2013

O corridinho, porém, ainda mal tinha começado pois  os verdadeiros dançadores, os profissionais, entrariam na dança só nos dias seguintes. E foi um fim de semana como já não havia memória! Qual 15 de setembro, qual 2 de março, quais manifestações de rua qual quê, o Governo reuniu de emergência, ainda mais de emergência foi pedida audiência ao PR e no dia seguinte, arfante de canseira e de cansaço, o PM dirige uma violenta catilinária ao TC mas promete lutar até ao fim das suas forças contra tanta iniquidade. Ficámos a saber que ainda não perdera a força animica. E percebemos que agora a dança já era outra, o vira. Porque no dia seguinte era a vez do PS dirigir uma violenta catilinária ao Governo. Entrementes iam entrando e saindo os trauliteiros, degeneração da dança dos paulitos, de serviço. E o bailinho terminou.
“Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência)” – Cícero – é o que me ocorre. Desde sempre se previu, e o ano passado já se ensaiara a dança, que o OE de 2013 estaria ferido de inconstitucionalidades. As opiniões divergiam quanto ao conteúdo mas convergiam quanto à forma. Da direita à esquerda vieram avisos. A tudo o Governo da nação fez orelhas moucas. E, dada a vacatura figurada  da presidência da república, o orçamento  entrou oficialmente em vigor. Aos que pretendiam a fiscalização preventiva da constitucionalidade disse nada e aos que recorreram à sucessiva estamos conversados. De toda esta verborreia resultou que o país continua mergulhado numa crise profunda, sem fim à vista. E, como se não bastasse, o Governo repuxa da sua habitual pesporrência e ameaça ir de mal a pior: ai o TC diz que não podemos, então ides ver o que vos espera!? E para que não  restem dúvidas, o circunspecto ministro das finanças, de saída para um beija-mão aos credores,  ensaia uma pirueta de fino recorte ballerino ao decretar que no que é público não se gasta mais nada – só até ver, foi só para assustar, e suster – e logo um coro de espargatas alvitra o fim dos serviços do estado e o cruel abandono dos cidadãos a sorte incerta. E pensávamos nós que a bailinho tinha terminado. Passou-se foi do folclore para a dança clássica!?
Por que me ocorre Cícero outra vez? Uma tristeza profunda se me crava nas entranhas, e então me aconchego no grande poeta: “Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!” – Fernando Pessoa.




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