Fotografia:
A cigarra e a formiga

Sempre que penso na grave crise que o país atravessa, ocorre-me a fábula de La Fontaine A Cigarra e a Formiga e que o nosso poeta setubalense Bocage (Manuel Maria Barbosa du, 1765-1805) imortalizou em saborosa rima. Para melhor compreensão da mensagem que a fábula encerra, façamos a seguinte equivalência: A cigarra – o nosso país; a formiga – a troika; verão – os tempos de desafogo económico, de vacas gordas; tormentosa estação – a situação económica atual, de vacas magras, escanzeladas

Dinis Salgado
17 Abr 2013

Eis, pois, a referida poesia:

Tendo a cigarra, em cantigas,
folgado todo o verão,
achou-se em penúria estrema
na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
que trincasse, a tagarela
foi valer-se da formiga
que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
pois tinha riqueza e brio,
algum grão com que manter-se
té voltar aceso estio.

«Amiga, – diz a cigarra –
prometo, à fé de animal,
pagar-vos antes de agosto
os juros e o capital.»

A formiga nunca empresta
nunca dá, por isso ajunta.
«No verão em que lidavas?»
à pedinte ela pergunta.
Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! Bravo», – torna a formiga –
Cantavas, pois dança agora!»

Só um pequeno pormenor: quando Bocage diz que a formiga nunca empresta, é porque, no seu tempo, ainda não existia a troika que, hoje, além de emprestar ainda cobra elevados juros. Que desta fábula, porém, o país, mormente o governativo, político, bancário e empresarial, saiba retirar a devida e pedagógica lição: não dediques a vida apenas à diversão; trabalha e guarda para os momentos de escassez.
Então, até de hoje a oito.   




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