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Perdido na oportunidade

No domínio das coisas materiais, ganhar a taluda é a maior oportunidade que a vida nos pode dar. Talvez única. A sorte cruza-se connosco uma vez ou nem isso. Por isso, perder o bilhete premiado ou a fracção vencedora e não aproveitar a taluda, só por muito azar, distracção ou desprendimento. Assim também, acertar em cheio na sorte grande numa legislatura é, como na vida, um acontecimento que não pode ser desbaratado. Mas, há que contar com os protagonistas.

Luís Martins
16 Abr 2013

Em política, ganham-se oportunidades e perdem-se outras. Passos Coelho tem-nas perdido todas. Os números e as opções que tem escolhido não o têm favorecido. Antes pelo contrário. A sorte tem estado ao alcance, mas sem que haja sucesso. O primeiro-ministro teve-a nas mãos há dias quando o Tribunal Constitucional lhe deu a notícia de que era preciso mexer no orçamento e nas políticas, mas, mais uma vez, insistiu no mesmo número e perdeu. E não foi por falta de sorte, que esteve à frente dos seus olhos. A questão é que apostou na cautela errada. O seu grande problema, e não foi a primeira vez que tal aconteceu, foi perder-se na oportunidade e não escutar quem lhe sussurrava ao ouvido ou lhe apontava o número da taluda. Como das outras vezes em que ficou a contemplar o momento quando o tempo urgia e o concurso estava prestes a encerrar ou olhava a fracção ou o bilhete completo, questionando-se perante as suas referências e acabando por não comprar. Os resultados têm sido negativos, sem prémios, apenas a saída do custo das apostas. No ar, a sensação de enjoo por causa do voo picado que ainda vai resultar em demissão.

A decisão do Tribunal Constitucional não foi aproveitada, antes criticada. O primeiro-ministro não gostou e não percebeu que isso era uma oportunidade. Que estava aí a sua safa. E não percebeu porque aquela feria a sua obra–prima. Uma contrariedade? Sim, perante o or
çamento que teimosamente quis fazer sozinho com Gaspar. Porém, tudo podia ser diferente se, depois de todos os enganos com as contas das previsões e das apostas na austeridade pura e dura sem medidas de crescimento à altura das circunstâncias, o constrangimento fosse aproveitado para arrepiar caminho e inverter a situação a favor de Portugal, e a seu também.

Para lá das consequências económicas e financeiras, num tempo em que os portugueses estão a viver dificuldades, outras se apontam. Muitos dos alinhados com o maior partido representado no Governo estão a debandar e a renegar as suas convicções iniciais. Já não estão todos os que acreditaram no projecto inicial e fizeram a sua parte. O grupo está a desfazer-se à medida das explicações sem sentido. Dos eleitores pode dizer-se que muitos deixaram de apoiar, outros voltaram-se para quem antecedeu na governação ou regressaram aos ambientes que frequentavam antes das últimas legislativas. Saíram desiludidos e tristes perante a realidade, constatando que quase tudo foi dizimado num abrir e fechar de olhos. Ficam o desalento e o receio pelo futuro quando há pouco se falava em prosperidade. Ficam as sondagens.

Às vezes precisa-se de uma parede, de um muro ou de um poste eléctrico na rua para que alguém se situe, tão distraído que anda. Dito de outro modo, precisa-se de um amigo ou de um inimigo que chame à razão para que a atenção se mantenha activa e o percurso se faça pelo passeio certo. Passos Coelho recebeu esse apoio desde o princípio, mas tem querido gerir só o caminho que escolheu. Não que queira os louros todos para si, mas por achar que os outros podem perturbar a sua determinação e chamá-lo à atenção dos desvios entre o que prometeu e o que está a fazer.

Começa a anoitecer. No contexto de fracasso iminente, não é fácil aceitar agora a narrativa de que ainda é possível. Talvez seja a aparência. Talvez a distância que se alonga, em vez de encurtar. Talvez já não acreditemos e isso nos impeça de ver alguma virtude ou uma coisa positiva. Talvez falte força e alento. E um pouco de emoção também.




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