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‘Cantinas sociais’: solução, risco ou desafio?

No desenrolar desta crise – social, económica, política, financeira, moral ou ética – temos visto variadas sugestões de solução: umas mais simples e correctas, outras a roçar o idealismo ou até a má fé; umas sob o signo da adulação, outras na tentativa da resposta mínima; umas tantas influenciadas por mentores político–partidários, outras numa sensiblidade mais civilista; algumas surgidas de quem conhece o terreno, outras tantas utópicas e sem qualquer exequibilidade…

A. Sílvio Couto
15 Abr 2013

Houve uma proposta – vinda do actual executivo político nacional – que quis adiantar remédio para certas desgraças anunciadas… na linha de outros projectos – deste como dos governos anteriores – que quiseram dar de comer antes que a fome se tornasse uma reivindicação não controlável. Falamos das cantinas sociais.
Vejamos, então, uma (possível) apresentação, bem como os números da sua execução, para além das razões e (mesmo) dos desafios e (até) dos perigos deste projecto… hoje como amanhã.

= Envolvendo alguns dos fautores portugueses da economia social – CNIS, União das Misericórdias e União das Mutualidades – o Governo, em janeiro passado, anunciou um “programa alimentar de emergência”, num total de 251 milhões de euros para este ano… envolvendo mais de sete centenas de instituições.
Atendendo à complexidade deste assunto – dar de comer num contexto de crise, embora onde as pessoas recebam a comida já feita – parece-nos urgente ver as implicações desta matéria no tecido social português, onde muitas vezes se dá (ou pode dar) uma certa acomodação, criando, por seu turno, mais um espírito reivindicativo e como que ate-
nuando a procura de soluções porque alguém – Estado/Governo, autarquias/associações – já o fez por nós… e um tanto sem o nosso contributo.

= É digno de registo que, se neste momento socio-político, não se verificam mais problemas, conflitos e (até) muita outra fome é porque há uma rede capilar de instituições – muitas delas ligadas à Igreja, tanto católica como de outras denominações – que, no terreno, fazem um diagnóstico de proximidade e cuidam em prevenção e/ou de assistência… gerando e gerindo os recursos e alimentando quem, sem essa atenção, estaria desprotegido e talvez a passar mais mal.
Somos, de facto, um povo de matriz pobre, mas com uma alma de grande comiseração, embora nem sempre de correcta vivência e honesta relação. Explicando: aprendemos, normalmente, a viver com o mínimo e até fomos, durante muito tempo, formatados por alguma acomodação, que, por vezes, nos fez viver sem grandes anseios de riquezas… até ao tempo do regime que nos foi imposto pelas grandezas europeias, onde nos foram dizendo que podíamos viver sem trabalhar ou numa militância preguiçosa… encapotada.

= Que têm, então, as cantinas sociais – no seu traçado actualmente vigente – a ver com o nosso presente e no futuro próximo de país sob resgate de dívida externa colectiva?
Desde logo porque nos dão já feito aquilo que devia ser trabalho com participação nossa. Quem não sente a frieza da casa se nela se não cozinha? Quem não sente uma certa dependência dos outros, esquecendo os seus gostos e sabores? Quem não sente que perde identidade quando lhe dão cozinhado e não lhe fornecem antes os ingredientes para sentir-se útil e participativo?
Pela experiência de ter visitado, na década de noventa do século passado, um campo de refugiados, na guerra dos Balcãs, percebemos que a falta de trabalho – não queremos dizer a preguiça, embora a ausência de ocupação tenha os mesmos efeitos – faz frio e gera dependência psicológica e, tal como diz a moral cristã, a “preguiça é mãe de todos os vícios”. Por isso, cremos e ousamos clamar: não façam de quem precisa um necessitado de tudo feito, mas façam-no participar nas condições da sua valorização, tornando as instituições de apoio fomentadoras da capacidade de ensinarem a colaborar, dando, aos agora ajudados, ferramentas de maior empenho no futuro de si mesmos, dos outros e do próprio país.
Quem soube enquadrar e valorizar, na década de oitenta, um milhão de retornados – muitos deles não passavam de deslocados duma guerra que não era a deles – tem a obrigação de fazer melhor do que dar o peixe pescado sem cana nem anzol… Ontem como hoje, o futuro começa agora!




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