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Resgatar a democracia, o país e a Europa

Tempos sombrios e de quase exasperação. Nos tempos que correm, fruto de uma cristalização informativa e de uma crise económica que se mostra acrisolada no território que habitam, quase todos os portugueses – como os demais cidadãos do Sul da Europa, em maior ou menor grau – se sentem familiarizados com os assuntos económicos e financeiros. Por aqui, a Sul, o mundo, a realidade e a vida, encolheram, parece não haver mais horizonte para lá da economia, ou melhor, do cerco económico?financeiro. Mas, forçosamente, tem que haver mais vida.

Amadeu Sousa
14 Abr 2013

A liberdade, a democracia contemporânea e a igualdade, herdadas do iluminismo, do liberalismo anglo-saxónico e da Revolução Francesa, mostram-se agora combalidas na terra de origem, na mesma Europa, a Sul.
Por agora, as ameaças parecem ficar-se pela designada democracia social, mas se atendermos à História fácil nos será reconhecer que a corrosão grave dos laços de solidariedade institucional – isto é, do papel do Estado no amortecimento das desigualdades, das carências, do desemprego e da pobreza – conduziu tipicamente, no passado não distante, à indiferença perante a liberdade ou à insurreição civil.
Portugal, 2013. Nos dias que correm, os mais lúcidos, e desempoeirados de deformados complexos ideológicos de direita, podem genuinamente preocupar-se com o facto de o primeiro-ministro, denotando uma ausência de cultura democrática, se insurgir de forma quase desabrida contra decisões do Tribunal Constitucional que invalidaram normas do orçamento de Estado para ano em curso. Coisa impensável, no tom (abstraindo a substância), nas democracias da Alemanha ou dos EUA, por exemplo. O princípio da separação de poderes, elemento basilar na formatação das democracias modernas, não se compadece com o tom e a forma da reação de Passos Coelho.
Hoje, a Europa quase não existe. O euro, profetizado como uma criatura fermentadora de mais e melhor Europa no futuro, mostra-se, afinal, fraturante e asfixiante dos ideais europeus. A Europa não é a Alemanha, mas, infelizmente, a Alemanha é hoje a Europa. Por mais que não queiram, os alemães, os maiores beneficiários do “projeto euro”, não têm estado à altura da responsabilidade que lhes incumbe como grande potência económica da Europa dos nossos dias. Por cá, o Governo português, ensimesmado pelo complexo de gestor de um país muito endividado, perde tempo demais a olhar pelo retrovisor – culpando o desmazelo, comummente aceite, da gestão de Sócrates –, mostra-se incapaz de apontar horizontes de esperança e abdica de quaisquer sugestões ou reclamações acerca do futuro da União Europeia, da qual ainda somos membros de direito.
Hoje, o Sul da Europa retrai-se, ou esvai-se quase. E perdendo-se o Sul, de onde irradiou a Europa desde a Antiguidade, perde-se a alma de um projeto generoso e prometedor, que foi. Curiosamente, a União Europeia, que nasceu alicerçada na economia, corre o risco de se esfrangalhar devido aos desencontros da mesma economia e das finanças. Hoje, vivemos, pois, tempos de risco, mas ainda de oportunidade.
Por cá, temos de resgatar o país (as finanças), mas temos de preservar a democracia política e social para que, entretanto, não venha a ser necessário resgatá-la também. E a Europa, hoje pouco “unida”, que percorre caminhos desencontrados, sob a ameaça de dilaceração, quando não dos fantasmas do confronto e da guerra, também precisa de ser resgatada.
* Doutor em História Contemporânea pela FLUC




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