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Referências para a renovação e solução dos problemas pastorais

O novo Papa acordou muita gente para a renovação da Igreja e para a urgência de soluções para os problemas das comunidades cristãs. As propostas que aparecem, mais de cariz tradicional, não coincidem com os caminhos que o Papa Francisco propõe e mostra. Deve procurar-se luz onde existe, não onde ela foi perdendo o seu brilho.

D. António Marcelino
14 Abr 2013

Não é fácil a desmontagem de ideias feitas e experiências vividas em tempos que não estes. O mesmo se passa com as instâncias políticas europeias e nacionais, onde predominam os interesses nacionais e partidários, que empurram sempre para becos de saída difícil. Na Igreja, porém, pela sua natureza e objetivos da missão, as referências têm outra dimensão. A menos que os interesses particulares abafem os comuns, mais abertos à verdade objetiva.
A referência para orientar a renovação e apreciar os problemas com que a Igreja se debate é sempre e só o Povo de Deus concreto. Assim o dizem Bento XVI ao resignar e o Papa Francisco com os seus gestos simples, elucidativos e ao arrepio de tradições balofas. O Papa e os demais membros do clero valem na medida em que servem um Povo de servidores, o qual Deus ama e cuida com especial desvelo. Este é o modo mais normal e fácil de exorcizar o clericalismo.
Não é fácil, para quem vive de um passado que perdeu significado e dinamismo, aceitar que a história dos Papas, bispos e outros membros da hierarquia só tem sentido como serviço que ajuda a crescer “um Povo que conheça Deus na verdade e o sirva na santidade”. A história da Igreja é a história deste Povo que, na sua fidelidade, com êxitos e fracassos, realiza o seu serviço aos outros, dando assim a Deus o louvor devido. “A glória de Deus é que o homem viva”, como proclamou Santo Ireneu. Não é o prestígio dos hierarcas, nem os fumos humanos e sociais que inebriam muita gente. Fumos que se traduzem em títulos, vestes, palácios, honrarias… Foi contra tudo isto que reagiu Francisco de Assis e reage agora o Papa que o escolheu como patrono.
A referência clerical não é a referência privilegiada para renovar ou inovar. Não é o número de padres que dita as regras de novos caminhos. É um Povo com as suas capacidades e necessidades. A partir dele se vai fazendo luz e se encontra sentido para o que falta. Os mediadores, mesmo quando indispensáveis, não podem ser a referência. O clero e seus critérios, mesmo contando com os mais generosos, não são o novo caminho indispensável e urgente.
No Povo de Deus todos têm vocação própria. No reconhecimento e promoção de todas as vocações se encontram as soluções desejáveis. Promover só vocações para o ministério ordenado e vida consagrada, ação importante embora, e esquecer o laicado é iludir o problema. Os leigos são maioria e a sua vocação é de cristãos no mundo. Com eles se constituem as famílias cristãs, alfobres de vocações e escolas de fé e de valores morais. Por outro lado, eles pertencem, de pleno direito, a este Povo de profetas, sacerdotes e reis. Não apenas para o que lhes é mandado, mas para refletir as situações e ajudar a encontrar, em cada momento, a resposta possível.
É na fecundidade do Povo de Deus e na consciência da missão que leva consigo, que está a esperança do caminho. Enquanto o reconhecimento da Igreja, como um Povo situado, com riqueza e história, e a aceitação dos leigos, com seus direitos e deveres, não forem objetivo permanente da ação pastoral, não me parece que seja possível uma renovação com futuro.




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