Fotografia:
O medo a Sócrates

Eu percebo qual era o problema de José Sócrates ser comentador na RTP. É evidentemente verdadeiro que José Sócrates designa o ser de uma coisa adquirida por todos nós portugueses: ninguém lhe é indiferente. Este homem ou se aceita ou se rejeita. Nesta abordagem importa pouco que se diga que os seus comentários provocam danos no PS, no PSD, no Governo ou até mesmo na esquerda. O que analisamos aqui, ou tentamos analisar, são os sentimentos que ele desencadeia com esta reaparição na TV. Estes sentimentos têm vários nomes.

Paulo Fafe
8 Abr 2013

A sua figura materializa não apenas uma coisa, mas várias, entre as quais uma correspondente a “animal político”; outras ganham sentidos como autoconfiança, denegação, liderança. Os sentidos destas palavras são finitos; é manifesto que elas não teriam nenhum sentido humano se fossem ou se assumissem como infinitas. Estamos assim nesta finitude a falar de um homem vulgar e não de uma qualquer transcendência. Então onde reside o medo a Sócrates?  Única e simplesmente na falta de soberania de entendimento de cada indivíduo; a soberania é o bom entendimento das coisas. Deduzo então, que o medo a Sócrates é a falta de bom entendimento das coisas que ele fez  e  das suas palavras.  Se fosse ao contrário, isto é, se eu não for soberano de entendimento, isto é, se eu não pensar pela minha cabeça, tudo me afeta porque todos são senhores do meu pensamento. Neste caso eu seria uma fotocópia e um papagaio. Que atestado de menoridade passa cada um a si, quando se arreceia de ouvir comentários que são contrários ao seu pensamento! Não me faço essa traição.  Não quero ser um surdo com a convicção de que oiço bem. Dizem-me que as pessoas não têm preparação suficiente para ser soberanas, que pensam pela cabeça dos outros e, por isso, as palavras se tornam perigosas! Mas é muito simples: ensinem-lhes a ter dúvidas metódicas, isto é, ensinem–lhes que vão acreditando, desconfiando! vão acreditando nas palavras que falam verdade. Há pessoas  para quem as palavras significam tudo; na verdade, estas pes-
soas não acreditam, querem acreditar e para os que querem acreditar nenhuma palavra é precisa, para os que não querem acreditar nenhuma palavra é bastante. Estão em negação de si. Todos nós somos influenciados pelas palavras; eu gosto de ser influenciado, gosto que a influência venha ao meu encontro para depois eu a sujeitar aos meus valores e fazer dela o meu valor, acrescentando, assimilando ou repudiando; trato-as como coisas. É isto que me faz soberano. É isto que me faz independente; é isto que quero como significante de dignidade pessoal. Isto não é pouco, nem fácil de fazer, mas só assim eu estarei em sociedade como sujeito. Porque sou eu e não outro perante os comentários políticos de José Sócrates, é que não os temo de forma alguma. Eu percebi no primeiro comentário de José Sócrates que o ex-primeiro-ministro estava a fazer a sua catarse sobre o passado e, na transferência que fazia das sua mágoas para o Presidente da República e atual Governo, encontrava, na dialética da justificação, um dos caminhos da cura. As feridas saram mais depressa depois de espremidas. Se isto lhe é preciso e se isto nos coloca perante o problema de aceitação ou rejeição, então o comentário de José Sócrates é nenhum leão. Ele veio e reabriu umas feridas socialistas que se iam tornando sedimento social. Mexeu nelas e elas voltaram à superfície. Se Sócrates não tem medo deste passado, por que ordem de razão haveremos nós de ter medo de Sócrates? Depois de depurado o risco de ser influenciado, tudo é Inofensivo. São as obras que hão de justificar as palavras e não as palavras a justificarem as obras.




Notícias relacionadas


Scroll Up