Fotografia:
“Tu podes ser o próximo Cristiano Ronaldo”

Não interessa referir o nome, o que conta é o que ele faz. E o que ele faz é propagandeado através de, por exemplo, um site na Internet e duas das mais conhecidas redes sociais, o Facebook e o Twitter. No YouTube, há vídeos em que ele se apresenta como o protagonista. Na página que tem online, por baixo do nome, encontram-se duas palavras: “atitude e comportamento”. Um pouco mais abaixo, sublinha-se a ideia: “Uma nova atitude e um novo comportamento”. Ao lado, a fotografia dele. Olhando para o canto superior direito, há um convite que permite perceber a que actividade se entrega: “Contrate uma palestra”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
7 Abr 2013

Quem se der ao trabalho de reparar no que está um pouco mais abaixo, encontrará uma lista com os temas das “principais palestras”. Em primeiro lugar, a palestra “motivacional: o sucesso está em suas mãos”. A palestra motivacional é, digamos assim, o core business, para não dizer “principal negócio” em linguagem menos pretensiosa. As “principais palestras” também incluem workshops (“faça diferente, faça a diferença”); sessões de treino (“day mastery”) e seminários (“ultrapassando limites”). O cliente pode ainda adquirir palestras sobre “vendas: ganhando mais” ou “liderança: seja um líder inspirador”. Uma palestra, um programa, uma mais-valia.

O site não esquece o que é de regra neste género de propaganda: a lista de clientes e os testemunhos. “Ele é um palestrante excepcional, consegue despertar o que está adormecido dentro de cada um”, diz uma cliente. “Ele realmente mexe com as pessoas”, corrobora um empresário. O autor de um livro best-seller também revela entusiasmo: “Energia, entusiasmo, carinho e um grande coração são qualidades que este homem tem de sobra e faz questão de compartilhar”.

O empowerment das plateias, para, de novo, usar linguagem pretensiosa, faz-se com uma certa parafernália tecnológica. A acreditar no que se diz no site, as palestras do conferencista “são muito interactivas com o público, feitas com diversos links ligados directamente ao seu DJ […], dando uma dinâmica especial e personalizada de alto impacto”. Se não impressionar pelo que diz, o palestrante espanta pelos equipamentos que usa nas suas prédicas: “dois computadores com mais de 800 músicas e efeitos sonoros, uma câmara de vídeo e uma mesa de edição que é utilizada para projecção simultânea entre os slides do PowerPoint e as imagens da câmara, captadas no momento da palestra”.

Exceptuando a página com os “próximos eventos”, que se encontra em branco, o site oferece muito para ler. Aos artigos do palestrante motivacional, com formação na área da psicologia, são consagradas 22 páginas. O primeiro é assaz promissor: “Você mais feliz”. Divide-se em cinco “dicas” que conduzirão à felicidade. Uma delas impõe que se “tenha atitude”. Após citar os que “garantem que diplomas não bastam”, o palestrante insta: “Você deve ser auto-motivado, deve saber aonde quer chegar, deve buscar a vitória todos os dias. Vá para o trabalho com ‘sede de vencer’”.
Antes da proclamação final: “Perceba que já é um vencedor”, escreve o palestrante que, “para você ser extraordinário você não precisa se tornar um super-homem ou uma mulher maravilha e sim ser o melhor você que você pode ser”. Parece confuso, mas o autor da afirmação garante que esta “filosofia é conhecida no Japão como Kaizen e nos EUA como C.A.N.I. (Constant and Neverending Improvement), ou seja, melhoria cons­tante e incessante”.
Os palestrantes motivacionais são mais ou menos assim. Como outros oficiantes da religião da auto-ajuda, cozinham uns restos – frequentemente estorricados – colhidos ao acaso em livros baratos de citações sobre psicologia, espiritualidade e vendas, colocam umas palavras ou expressões inglesas e servem como um pitéu de sabedoria inspiradora. E, no entanto, as prédicas oferecem apenas conformismo e resignação. O palestrante motivacional é um modelador de “recursos humanos” apetecíveis, de mulheres e de homens descartáveis.

Se tivessem de condensar tudo o que têm para dizer numa única frase, garantiriam: “Tu podes ser o Cristiano Ronaldo. Basta quereres”. Sendo palestrantes motivacionais, têm de o dizer com muitas mais palavras, corroboradas por gestos enfáticos. “Basta quereres”, sublinham. Não basta, claro, mas, se o admitissem, era o fim de mais um negócio da conversa de chacha.

P.S.: Há mais informações sobre o palestrante aqui referido no site http://www.rodrigocardoso.com.br/site/.




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