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Reencontrei o amor, um pedaço do céu

As palavras são importantes: transmitem ideias revestidas de sentimentos e ajudam a perceber a realidade que retractam e quem a retracta; mas, os factos são mais completos e eloquentes, são pedaços de vida, são ideias e sentimentos condensados por onde corre o sangue do amor. O que é preciso é saber interpretá-los. É por isso que valem mais do que mil palavras. Há histórias que são verdadeiros tesouros de sabedoria do amor, que é a síntese da vida. Como esta, onde sentimentos e convenções humanas se cruzam, de um modo nem sempre fácil.

M. Ribeiro Fernandes
7 Abr 2013

1. Seria lá pelos anos 60, não sei bem, mas também não interessa muito, pois é um pormenor que não muda a substância da história, um rapaz vivia na sua aldeia, lá para o Alto Minho, de onde se imigrava muito para Lisboa. Quando chegou à idade da tropa, o seu desejo era ir trabalhar para lá e ter sucesso na vida, como tantos outros da sua terra já tinham conseguido. A vida na sua aldeia tinha muitos horizontes. E, para um jovem, não ter horizontes de futuro é como ter asas e não poder voar. Se é mais limitado, então os sonhos são pequenos e qualquer coisa lhe serve; mas, se é capaz e não pode, é como sentir-se condenado a definhar de tédio por não poder arriscar voos mais altos e mais largos.
2. Andava ele congeminando este sonho de tentar a sua sorte longe das estreitezas de oportunidades que a sua terra lhe poderia oferecer, quando conheceu uma rapariga, por quem se apaixonou. E esta paixão mudou a polaridade do seu coração. Agora, continuava a querer ir para Lisboa, mas não sozinho; o seu coração estava preso a essa aparição. Mas, como, se ainda não tinha condições para casar? Antes de casar com ela, tinha mesmo de arriscar ir sozinho, preparando as condições do ninho da sua felicidade. Falou com ela e contou-lhe os seus projectos; mas, ela tinha receio de ficar esquecida e ser substituída por outra namorada. Queria casar logo. Na sua terra, dizia-se que, se uma rapariga não casava pelos 20 anos, ficava mesma para tia.
3. Os dias iam correndo, mas não havia solução à vista: ele era apaixonado por ela, mas era ainda um simples marçano, sem meios para montar casa de família; ela gostava muito dele, mas tinha receio esperar, ir perder o encanto dos vinte anos e ficar para tia, desperdiçando as oportunidades de outros rapazes que fosse conhecendo. E assim acabou por acontecer: ele acabou por ir sozinho para a capital trabalhar e ela conheceu outro namorado e casou-se com ele. Mais tarde, ele também se casou com outra rapariga, mas nunca a pôde esquecer.
4. Passados mais de 40 anos, não sei se por acaso, se por outra razão que desconheço (deve ser isso o acaso), ele encontrou-a, de passagem numa rua da Baixa de Lisboa. Mal a viu, o seu coração deu um pulo de alegria, chamou por ela e foi-lhe falar. E assim estiveram uma tarde inteira, contando cada um o que tinha feito desde que se separaram… Falaram de tudo e de nada, como falam os apaixonados. Como se o tempo parasse e voltasse atrás mais de 40 anos. Voltaram a sentir-se dois jovens sonhadores. Ele acredita no amor predestinado das almas gé-
meas. Sente que lhe falta alguma coisa para ser feliz, apesar de estar bem de vida, ser casado, os filhos já estarem casados. Ela também tem filhos, mas já é viúva. E, nessa diferença, cada um ficou na sua, apesar de se verem mais vezes, porque ele continua casado e não ia agora abandonar a mulher, que não teve culpa nenhuma dos descaminhos da vida dele.
Pelo menos, diz ele, voltei a sentir-me apaixonado, voltei a sonhar com o amor, reencontrei o amor apaixonado, um pedaço do Céu que tinha perdido. Para ele, o Céu é algo semelhante à alegria que nasce do amor eternamente apaixonado.
Fez-me lembrar um pequenino poema que Isilda Claudina, uma excelente poetisa, quase ignorada, dedicou ao seu apaixonado, que não lhe correspondia:
Eu queria para ti o sol, a lua,
As mãos cheias de luz, para te dar!
Eu queria para ti o paraíso,
A Primavera eterna no sorriso,
A doçura infinita no olhar…
Talvez tenha razão um amigo meu ao dizer que devia ser proibido de falar de Deus quem nunca viveu um amor apaixonado, porque desconhece a linguagem do amor.




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