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A caminho da ingovernabilidade

Cada vez me convenço mais que a nossa democracia não é um regime para ser levado a sério. Ainda estamos longe de termos assimilado culturalmente o conceito substantivo e autêntico de democracia. O que se passa em Portugal não tem nada a ver com democracia. Isto é um circo com cenas dramáticas envolvendo almas que se batem, a cada instante, por migalhas de pão para sobreviverem. Almas que sofrem. Almas que se ajoelharam já exauridas e já sem uma única réstia de esperança. Almas agarradas ao pasmo, à incompreensão e ao desespero.

Armindo Oliveira
6 Abr 2013

Em boa verdade, estou convicto que os nossos parceiros comunitários e as instituições internacionais não nos têm em boa conta. Somos demasiado irresponsáveis, inconscientes e inconsequentes para assumir compromissos, traçar metas arrojadas, delinear estratégias coerentes que impliquem rigor, disciplina e muita autoridade. Somos pouco exigentes connosco próprios e também não exigimos condutas estáveis e decentes a quem nos lidera. Envolvermo-nos facilmente na intriga e nos jogos soezes do poder. A avidez do poder retira-nos capacidade de boa decisão e de racionalidade. Sofremos do complexo de inferioridade cultural que nos torna mesquinhos e frágeis perante outros países que sentem orgulho pelo seu quinhão, pelas suas raízes e pelo seu povo. Perdemos o respeito aos nossos líderes com facilidade, porque são fracos, dão mau exemplo e não têm classe para assumir posições de comando. Somos assim, um povo subjugado pelos interesses imediatos e pessoais. Um povo egoísta que só refila com os mais fracos e que se encolhe e se verga ao poder dos mais fortes. Queremos mandar para passear a vaidade e a arrogância do poder e rejubilamos quando nos reverenciam e nos tiram o chapéu. Ufanamo-nos por dar a esmola da subserviência àqueles que se ajoelham aos nossos pés. Somos um povo que não tem respeito por si próprio.
Neste lodaçal, todos, praticamente todos, os atores principais da área política, quando saem de cena, apresentam, para se ilibar de quaisquer culpas e responsabilidades, as suas “narrativas”, sempre inocentes e sempre cheias de razões. Nunca há culpados! Nunca há responsáveis! A culpa do estado calamitoso e ruinoso a que chegamos é dos outros. Sempre dos outros. Foram os outros, conspiradores profissionais e maquiavélicos, que ao não serem leais institucionalmente nos conduziram à pré-bancarrota e nos colocaram nas mãos dos famigerados “especuladores”. Erros de governação não existem e nunca foram cometidos. Sempre de consciência tranquila e sempre prontos a assumirem cargos do Estado. Quando despejados das partidarites, vão engrossar o quadro dos comentadores políticos nas televisões para fazer enredos à Hitchcock e debitar estratégias inovadoras e soluções miraculosas. A verdade é que estamos falidos e andamos a viver à custa das “esmolas bem pagas” da Troika.
Mesmo numa altura de grande debilidade social e de pesados sacrifícios, os autores da façanha da pobreza e da miséria que invadem o país sentem-se injustiçados e vítimas de “mãos escondidas por detrás dos arbustos”. Os ódios viscerais, a logorreia sempre presentes em todos os atos e em todos os momentos. Ferocidade e rancores acumulados e fermentados ao longo de um tempo que deveria ser de profunda reflexão e de criteriosos exames de consciência, são proferidos na praça pública com toda a desfaçatez, quando, nos momentos próprios, sem coragem, se alinhou neste jogo de faz-de-conta em que tudo rolava democraticamente bem. É impressionante esta desculpabilização! É incomodativa esta desresponsabilização! E ainda é o sinal evidente que “estão em boa forma!” Inacreditável!
Triste país que se deixou amarrar a estes políticos que só olham para o seu umbigo, para as suas vaidades e para os seus interesses. Portugal está a caminho da ingovernabilidade sem culpados e sem responsáveis. A vil pobreza mora mesmo ao nosso lado e com residência fixa. Assim o quisemos. Assim o permitimos. Assim o temos. Não aprendemos nada com a história.




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