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Light, muito light…

Assim como nos últimos anos os produtos light passaram a invadir os nossos espaços de consumo, também foi proliferando um certo modelo de homem que poderá ser qualificado como “Homem Light”. É um homem relativamente bem informado do superficial, do mediático, entregue ao pragmatismo, ao facilitismo, ao conforto comum, adormecido, pouco exigente em termos culturais éticos ou morais e com escassa formação humana.

Maria Susana Mexia
5 Abr 2013

Tudo lhe interessa mas a nível superficial, não faz uma síntese daquilo que ouve, não digere informação e foi-se convertendo num sujeito trivial, vão, fútil e medíocre, que aceita tudo mas carece de critérios sólidos, formadores e humanos na sua conduta de vida, no trabalho, nas normas e nos afectos.
Nele tudo é etéreo, leve, volátil, banal e permissivo. Presenciou tantas e tão rápidas mudanças num tempo tão curto, que começa a não saber a que ater-se ou, o que é o mesmo, elege como suas afirmações do género: “tanto faz”, “que mal tem?”, “tudo é subjectivo ou relativo”, “quero lá saber” “as coisas mudaram e já não são como antigamente” ou, “eu cá para mim é assim” e pronto está a reflexão terminada e o diálogo bloqueado.
Normalmente é um bom profissional na sua especialidade, conhece bem a tarefa que tem entre mãos, mas fora desse contexto encontra-se à deriva, sem ideias claras, dependente de quem lhe diga como há-de pensar ou argumentar. Vive apegado a um mundo cheio de informação, que o distrai, e pouco a pouco, o converte num homem indiferente, alienado e virtual. Mergulha num enorme vazio moral, espiritual e psicológico, que se vai reflectir na vida de família, na educação dos filhos, nas relações profissionais e, naturalmente, em toda a malha social em que está inserido.
Possui convicções sem firmeza, apatia nos compromissos, indiferença numa mescla de curiosidade, relativismo e descrença. A sua ideologia é o pragmatismo, o fácil, a sua norma de conduta é o hábito social, o que se tolera, o que está na moda. A sua ética fundamenta-se na estatística, um substituto da consciência que já não possui e a sua moral está repleta de neutralidade, de falta de compromisso, de respeito pela hierarquias e de honra na palavra dada. No íntimo do seu ser abafa e abafa-se sem se atrever a vir a público com os seus sentimentos, ideias e afectos que nem ousa cuidar, desenvolver ou fomentar.
A sua insustentável leveza de ser, cada vez mais light, impera neste deserto de sentido do dever, do querer e do saber ser. É algo amorfo que passa sem deixar rasto positivo mas é o elemento virtualmente programado para passar e deslizar, sem agitar, deixando livre o espaço para que outros possam agir de acordo com os seus objectivos, interesses e intenções.
Cumpre a função de não existir sob pena de não saber que a essência definidora da sua humanidade é, por excelência, o envolvimento dinâmico, empenhado e amoroso com a vida e com a sociedade, em toda a riqueza de saberes e sabores de que ela é portadora.
Das entranhas desta realidade sociocultural em que vivemos plena de contrastes e incoerências mas, tecnicamente bem formada e informada, vai surgindo este novo homem produto do seu tempo – Light, muito Light, para não pesar, não fazer ondas, não se maçar nem se comprometer. Esquálido, neutro, assim-assim, sem sabor e mais do mesmo…?
Alerta, este produto tem a validade contada e, além de nocivo dentro do prazo, urge retirá-lo do mercado porque provou ser a causa da pandemia que nos circunda e nos afundou numa crise com dor? mas talvez com fim à vista, se todos nos empenharmos em reconstruir a malha humana que o deteriorou e ele, sem se aperceber, também deteriora.




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