Fotografia:
Deverá a cidade antiga querer parecer nova?

É importante reflectir acerca do centro histórico não apenas por ser altura de comemorações, quer associadas ao Dia Nacional dos Centros Históricos (28 de Março) e do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (18 de Abril); não somente porque a temática está na ordem das atuais políticas, mas também porque numa cidade como Braga perante uma administração municipal que gere de modo avulso e de forma nociva as intervenções no centro histórico nunca será demasiado trazer este tema a debate.

Fátima Pereira
5 Abr 2013

A regeneração urbana emergiu da política de conservação do património mas rapidamente ultrapassou esse âmbito impulsionada pelos constantes desafios ao qual as cidades são alvo, quer a nível económico, social, ambiental e cultural. Mas porque se tornaram, nas últimas décadas, os centros históricos um elemento incontornável de intervenção? Perante a degradação do edificado e a necessidade de repensar a função do centro histórico com a criação de novas centralidades originada pela distribuição de serviços que outrora nele estavam sediados; a necessidade de criação de melhores condições habitacionais; a constatação de que é economicamente insustentável e inviável a continua expansão das cidades e uma ocupação dispersa que onera de modo gravíssimo o contribuinte; mas pelo reconhecimento que as cidades deixaram de competir tendo por base recursos replicáveis em outros lugares para valorizar o que têm de único. O centro histórico tornou-
-se então num recurso não negligenciável na estratégia de competitividade, afirmação e desenvolvimento das cidades.
Renovação e Revitalização e/ou Regeneração urbana, em que diferem? O conceito de renovação está associado no seu essencial a uma demolição do edificado e a uma consequente substituição por construção nova, numa intervenção essencialmente física.
Revitalizar ou regenerar envolve processos de promoção, renovação, requalificação e reabilitação de forma combinada. Está relacionado com a introdução do planeamento estratégico e de um novo modelo de governação, descentrando a tomada de decisão, envolvendo instituições públicas, indivíduos, empresas, organizações não-governamentais e governamentais. Tem a ver com um crescente interesse da sociedade, dos stakeholders em participar no desenvolvimento do território, e da emergência de processos de decisão mais negociados e participados pelos agentes num contínuo enfraquecimento do estado enquanto agente económico. Muitas cidades têm utilizado estes programas para fomentar a sua identidade, a sua pertença através da intervenção no património e na recuperação das memórias urbanas.
Ora em Braga o que assistimos? Um percurso pelo centro histórico e temos a apreciação que a cidade não se revitalizou e/ou regenerou, a cidade apenas se renovou e continuamente o faz. Em cada obra municipal, bem como em inúmeras obras de intervenção privada essencialmente por existir um regulamento de intervenção no centro histórico muito permissivo, pouco orientador e sem uma clara definição de estratégia para intervenção nos mesmos; o culto pelo “fachadismo” ou a destruição integral dos edifícios que tem marcado as intervenções e nas “operações de cosmética barata” no espaço público, a cidade sofre perdas irrecuperáveis no que se refere ao seu património, à sua identidade pelos contantes atentados à paisagem urbana. Deverá a cidade antiga querer parecer nova?!
Ao abrigo deste programa de regeneração urbana a gestão municipal não teve a capacidade de evoluir nas políticas públicas e consequentemente no modo de exercer o urbanismo, na passagem de intervenções de renovação urbana para intervenções revitalização ou regeneração. A gestão municipal não foi capaz de pensar o território envolvendo os agentes, as associações, a população e isso sente-se no distanciamento das intervenções ao real contexto da cidade. Não teve acções estratégicas e concertadas de intervenção no mesmo constatando-se pelo modo como tratou a localização de um equipamento importantíssimo como a pousada da juventude para a dinâmica do centro histórico; não foi capaz de desenvolver políticas de mobilidade sustentáveis; esteve ausente na promoção da nossa identidade e do nosso património; não valoriza os achados arqueo-
lógicos como mais-valia económica e identitária; não teve estratégia para o comércio tradicional à medida que autorizou a localização de centros comerciais na periferia da cidade e o que assistimos é uma desertificação constante das ruas. Isto apesar de o município ter um Plano Estratégico não é ter uma estratégia! Urge uma estratégia para o centro histórico!




Notícias relacionadas


Scroll Up