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Queima de Judas

1 Respeitando todas as opiniões em contrário, devo declarar que nunca simpatizei com essa brincadeira da queima de Judas. E não me parece que seja uma forma cristã de celebrar a Páscoa. Se é verdade que «cada homem permanece para si mesmo um problema insolúvel» («Gaudium et Spes», 21), os outros são para cada um de nós um problema muito mais insolúvel. E a pessoa de Judas é para mim um enigma que não consigo decifrar. Bento XVI, no seu livro «Jesus de Nazaré», dá o título de «o mistério do traidor» ao capítulo em que recorda o comportamento de Judas. Para Giovanni Papini («História de Cristo») «só dois seres neste mundo conheceram o segredo de Judas: Cristo e o Traidor». Judas, acrescenta, «é o único mistério humano que se encontra nos Evangelhos». 

Silva Araújo
4 Abr 2013

2. Objetivamente, aos olhos de qualquer ser humano provido de bom senso, Judas errou e errou terrivelmente. Traiu um dos seus companheiros, por todos justamente considerado o Mestre. Prevenido (Mateus 26, 20-25; Lucas 22, 21-23; João 13, 21-30), não desistiu do seu condenável propósito. Converteu um beijo, que sempre deve ser sinal de amizade, em sinal de traição (Mateus 26, 49; Lucas 22, 47-48). Usou mal, muito mal, da sua liberdade.
Vendo o seu gesto com os tais critérios humanos, a consciência do erro cometido gerou nele o sentimento do arrependimento. Simplesmente – e continuo a raciocinar segundo os referidos critérios humanos – o arrependimento não o levou à conversão, ao contrário do que sucedeu com o companheiro Pedro, mas produziu o remorso que conduziu ao desespero. Desprendendo-se do preço da traição, pôs termo à vida (Mateus 27, 3-10).
 
3. Mas o que é que se passou no íntimo de Judas no decorrer de toda esta tragédia?
Só Deus o sabe. Só Deus o pode julgar. Como me não sinto com coragem para atirar a primeira pedra (João 8, 1-11), não emito qualquer juízo. O traído foi Jesus, que morreu implorando do Pai o perdão para os que o martirizaram (Lucas 23, 34), e no momento da traição não deixou de lhe chamar amigo (Mateus 26, 50).
A condenação ou salvação de Judas é tema sobre que nenhum ser humano se pode pronunciar.

4. Sem pretender branquear o seu comportamento, considero um erro fazer comédia com o trágico do seu drama. Não alinho nessa de o identificar com um reles boneco que, para gáudio dos espectadores, se faz explodir. Apesar do horroroso do seu ato, Judas nem por isso foi privado da dignidade de ser humano. Que não tivesse agido de harmonia com ela, é outro caso.
«O Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido» afirmou Jesus a propósito de Judas (Mateus 26, 24). E quem me dá a verdadeira interpretação destas palavras?
 
5. Quando ouço falar em pecadores não preciso de deixar a minha mesa de trabalho para encontrar um deles. Traições, de uma ou de outra forma, não têm faltado ao longo da história da humanidade. Os pecadores, segundo a doutrina e a prática de Jesus a quem Judas traiu, nem pelo facto de terem pecado devem deixar de ser respeitados. Detesta-se o pecado mas respeita-se a pessoa que peca.
Talvez venha a propósito recordar uns parágrafos do número 28 da Constituição Pastoral «Gaudium et Spes», já acima referida, do Concílio Ecuménico do Vaticano II:
«O nosso respeito e amor devem estender-se também àqueles que pensam ou atuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até religiosa. Aliás, quanto mais intimamente compreendermos, com delicadeza e caridade, a sua maneira de ver, tanto mais facilmente poderemos com eles dialogar.
Evidentemente, este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve distinguir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual conserva sempre a dignidade própria de pessoas, mesmo quando está atingido por ideias religiosas falsas ou menos exatas. Só Deus é juiz e penetra os corações; por esse motivo, proíbe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de qualquer pessoa.
A doutrina de Cristo exige que também perdoemos as injúrias, e estende a todos os inimigos o preceito do amor, que é o mandamento da lei nova: ‘ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam’».




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