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Quando nós éramos ricos

Construímos autoestradas, estradas e pontes, por onde o orgulho nacional se passeava;Levantámos centros culturais, comerciais e pavilhões multiusos que, hoje, com pouco ou nenhum uso, mais não são que elefantes brancos; Erigiram-se estádios e campos de futebol, piscinas, rotundas, fontes luminosas e espelhos de água que já dão enormes dores de cabeça a quem os tem de manter funcionais;
Compraram-se a crédito, fácil e barato, casas, carros, férias, mobílias, telemóveis, roupas de marca e, até, se adiantaram ordenados a meio do mês, naquela onda de demagogia voraz do compre agora e pague depois;

Dinis Salgado
3 Abr 2013

Distribuíram-se cartões de crédito e débito a torto e a direito com o único intuito de viciar o povo no uso e abuso do recurso ao dinheiro (de plástico), perdendo-lhe, assim, o respeito que ainda lhe tinha; Passou-se a ir de carro ao café e ao quiosque dos jornais, a frequentar restaurantes em vez de se cozinhar em casa, a tomar, diariamente, o pequeno-almoço em balcões e esplanadas, a ir ao cabeleireiro todas as semanas e a dar semanadas ou mesadas chorudas aos filhos, como se tudo não passasse de formas de modernidade e de afirmação pessoal e social;
Abandonaram-se terras, desmantelaram-se barcos, fecharam-se indústrias e comércios meramente a mando dos senhores de Bruxelas que, assim, de nós faziam consumidores passivos de produtos vindos do exterior e a troco de subsídios, louvaminhas e palmadinhas nas costas;
Abriram-se universidades e institutos politécnicos aos pontapés que, depressa, viraram fábricas de licenciados, mestres e doutores (agora emigrantes) e lançaram–se programas como o das Novas Oportunidades que licenciavam a ignorância e o facilitismo e, até, as escolas básicas e secundárias, pouco mais que em autogestão, premiavam a indisciplina, a burrice e a má criação e tudo na certeza de que, assim, seríamos um país moderno e a sair do analfabetismo e obscurantismo seculares;
Garantiram-se, através da Segurança Social, todo o tipo de apoios e subsídios que iam alimentando a preguiça, a calaceirice, a mandriagem, a malandrice e o chico-espertismo nacionais e criando a ilusão de que viver não custa, o que custa é saber viver;
Praticava-se a demagogia, a mentira e o populismo políticos, através de governações e atuações partidárias, exclusivamente, como armas de vitórias eleitorais e conquista e manutenção do poder;
Entretanto, iam assiduamente chegando da União Europeia paletes e paletes de subsídios (muitos a fundo perdido) para modernização e desenvolvimento do país e formação empresarial e profissional, mas que, à boa maneira lusitana, esbanjados eram em megalomanias, desperdícios, exibições e vaidades, enquanto o Estado passava a ser um enorme guarda-
-sol, protetor e benfeitor, de mais de cinco milhões de portugueses…
Quando nós éramos ricos…
Nós éramos cigarras cantadeiras em constantes primaveras e verões, a pensar que, jamais, os duros invernos voltariam.
Por isso, se julgava o povo esperançado e feliz e acreditava que nunca mais seria pobre e, obviamente, não precisando de pensar, que tanto custa, no dia de amanhã. Porque, afinal, era assim que os políticos lhe prometiam e queriam.
E é, assim, que, tristemente, chegámos ao estado de dependência, miséria, sofrimento e angústia em que, hoje, vivemos.
Então, até de hoje a oito.




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