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Narrativas…

O homem chegou, acertou contas com o inquilino de Belém que, sibilino, anda a distribuir roteiros e se diz limitado a intervenções “meticulosamente” calculadas, por isso aparece pouco e fala menos. De caminho vai mandando recados, que a intriga e as tricas político-partidárias não produzem riqueza nem criam emprego, que se a “nossa televisão” se ocupasse com o que devia “Portugal estaria melhor”, e por aí adiante. Quem quiser saber mais, se mais houver a saber, que vá ao Facebook, está lá tudo (!!???). E quanto a isto, por agora, estamos conversados.

Maria Helena Magalhães
3 Abr 2013

Ora, Portugal está mal e vai de mal  a pior se não arrepia  caminho. O Governo está a cair por dentro, a tal coligação coesa capaz de mitigar todas as indisposições internas já nem se preocupa em fazer calar os arautos de serviço e, ao que se faz saber, o primeiro-ministro já terá admitido que se calhar está por um fio. Porque os portugueses estão pelos cabelos. Há muito. E ninguém poderá dizer que não se nota nada.
Entrementes, a nossa televisão mostra o nosso circunspecto ministro das Finanças, de visita aos Estados Unidos, a conversar descontraidamente rua fora, pasta na mão e ar friorento, que por lá os rigores invernosos não se fazem rogados, a dar conta à jornalista que o acompanhava, de microfone em punho, das suas bem sucedidas andanças pelos centros  de decisão do mundo e de como Portugal iria beneficiar com isso. E digo andanças na verdadeira acepção da palavra pois o nosso homem não se fez aparecido a sair  dum carrão com motorista a preceito e uma data de seguranças ao redor. Em Roma, como os romanos, será? Talvez por aquelas paragens não se use o estadão que por cá se gasta, para mais sendo governante de um país que se diz pobre, agora sob tutela da chamada  ajuda externa – que nos está a matar, meticulosamente –, reduzido a protectorado. 
O que me faz lembrar o quanto as tais “gorduras do estado”, por cá assim chamadas e que  em vez de minguarem têm crescido,  me arregalaram de espanto quando cheguei a Angola. Estava eu de fresco em Luanda e uma bela tarde, saindo sozinha, me dei conta da invulgar tranquilidade naquela praça central e só depois reparei que não havia carros e que mesmo os peões escasseavam, para finalmente me aperceber de que havia militares armados por todos os lados e que as ruas em redor tinham sido cortadas ao trânsito. Pensei que algo muito grave tinha acontecido. Descobri, varada, que afinal era apenas o senhor Presidente, lá veneradamente tratado por sua excelência e como tal se fazendo respeitar, que devia passar por ali. E passou, um alarido de sirenes dos batedores da polícia a  abrir um  cortejo de carrões de vidros fumados, todos iguais, fechado por igual  alarido de sirenes, circulando a alta velocidade. Num desses carros iria sua excelência. E só depois as pes-
soas voltariam a circular livremente e o trânsito retomaria o seu jeito infernal. Tudo na maior normalidade. Encolhi os ombros, sorrindo, num europeu solilóquio, “como são ridículos os tiques terceiro-mundistas!”
Tinha de regressar a casa, e dar de caras com a receita da troika, e ver engrossar os protesto nas ruas, e ver as nossa excelências acomodadas em gabinetes,  e quando fora a  fazerem-se encobrir por escudos de seguranças, e a usar a porta dos fundos, e a fintar encontros mal esperados, e a fugir das grândolas que  o desespero já não cala, e a pensar nos tiques do terceiro mundo. E a ver um quase país especado, de antemão excitado num estranho afã de prós e contras, suspenso do que o homem iria dizer, e o homem chegou e acertou umas contas. E mais dirá. O folhetim  ainda agora começou. José Sócrates vai passar a comentador nacional. Semanalmente.
A austeridade vai andar à solta, a chupar os portugueses até ao  tutano, a esfarrapar os europeus ditos necessitados, a semear espantalhos de revolta, a convocar fantasmas do medo, e os portugueses vão ficando pobres e acompanhados, e cada vez mais desassossegados. E as intrigas e as tricas não vão resolver nada. Nem as jogadas de bastidores, mesmo que meticulosamente calculadas, nem as encenações de falsas fidelidades, nem as corridas à audiência das nossas televisões, nem os comentários dos comentadores.
Cada um constrói a sua narrativa. A narrativa de Portugal terá de ser reconstruída. E será.




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