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As constantes inquietações de Nietzsche

Vejo na filosofia de Nietzsche (1844) um desejo veemente de oxigenar a vida e de vitaminizar a circulação do sangue ao propor injetar-lhe nas veias, umas ampolas de placebos, mais conhecidas por valores. Digo placebos, pois não lhes conheço bem a radical origem de onde foram extraídas. Tais valores têm por objetivo introduzir, no mundo do reino social, o homem forte, o verdadeiro super-homem. O que sei, pela pena do filósofo, é que essas ampolas contêm vitaminas de criatividade e de fidelidade; de domínio, de implantação e transmutação; de superioridade, superação e de retorno.

Benjamim Araújo
3 Abr 2013

Por reação às vitaminas de domínio, implantação e transmutação, desenvolveram-se, no meio social, os homens bons, os fortes, os valorosos, os nobres, os criadores e os senhores. Os que puseram de lado estas vitaminas não alteraram o seu estado de debilidade e cobardia. São pusilânimes e deserdados da vida. São escravos.
Os extratos que se seguem, referentes à implantação e transmutação dos novos valores, foram recolhidos, entre outros, da História da Filosofia de Klimke – Colomer, acerca de Nietzsche.
A primeira coisa que o homem deve pôr a si mesmo “é a morte de Deus na sua consciência”. Agora está sozinho, pode criar. A solidão é intolerável. Se Deus não existe, o reino da Terra é a única realidade. Temos de lhe ser fiéis. O grande crime é estar contra a terra e aceitar o incognoscível.
A primeira coisa é conhecer a terra, para saber o que fazer nesta vida. A vida é a vontade de domínio. O bem é o domínio, é o sentimento de poder que o homem tem sobre si. O mal é debilidade, resignação, conformidade. Há um conflito entre a moral cristã e a moral terrena e senhorial. Os maus tratos da vida são a ponta do cigarro, em chama, que despoleta as chamas alterosas e incendiárias dos ressentimentos. Não são as mangueiras da paz, do conformismo e das preces a Deus, que as controlam e dominam. São, isso sim, as mangueiras do inconformismo e da luta. “Assim falava Zaratustra” (obra de Nietzsche).
O super-homem é o que se supera a si mesmo. Supera-se, quando se entrega à terra. Deus morreu; queremos, agora, que viva o super-homem. Eu, diz o filósofo, voltarei eternamente a esta mesma vida para ensinar aos homens a vinda do super-homem.
Nietzsche pede a expulsão de Deus da nossa consciência e o seu assassinato na nossa vida terrena. Se a intenção do filósofo é chamar a atenção dos homens para o exercício das suas responsabilidades, autonomia, liberdade e para a sua poderosa criatividade, a fim de explorarem, por sua conta e risco, o reino da terra, sem as substituírem por Deus, com preces, orações e sacrifícios, tem toda a minha aceitação e acolhimento.
Acerca do valor ou desvalor das afirmações de Nietzsche, não me vou pronunciar. Vou simplesmente enviá-las e submetê-las ao juízo do “Tribunal” da nossa autêntica natureza, para que se pronuncie de acordo com o seu caráter.
Este tribunal é uno, autónomo e livre. Os seus relacionamentos, com fundamento nas relações de paz, unidade, bem, bondade, verdade, sabedoria e beleza, são imanentes à própria natureza. Os relacionamentos são transitivos, quando partem daí, como foguetes, para o reino da terra, para que todas as suas riquezas sejam conhecidas e exploradas em benefício da sobrevivência e da melhoria das nossas condições de vida. Os relacionamentos são transcendentes, quando partem da natureza autêntica para o reino de Deus.
Nestes relacionamentos, a unicidade, a liberdade a autonomia do “Tribunal” não consentem a destruição, a desvalorização e o desgaste da unidade entre o mundo terreno, a nossa autêntica natureza e o mundo transcendente. Assim fala o ser profundo da nossa autêntica, concreta e singular natureza.
Este “Tribunal” como julgará, então, as afirmações de Nietzsche?




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