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A festa da Páscoa no norte do país

A festa da Páscoa no norte do país tem características que a distinguem do resto do país: para além de só lá haver a tradição da visita pascal, há um sentido partilhado de festa, de alegria vivida em família, que se torna extensivo ao grupo social. Destaco três características culturais: o sentido de festa, a vivência dessa festa em família e o dinamismo de transformação social que ela gera no grande grupo. Todas essas características conjugadas, fazem da festa da Páscoa no norte do país um acontecimento especial. Claro que não se pode omitir a raiz religiosa desta festa, que a alimenta e é inseparável da sua expressão cultural, pois é da convicção religiosa vivida socialmente que nasce essa expressão cultural. Neste tempo de crise, em que os valores da confiança pessoal e da coesão familiar e social adquirem um significado cada vez mais importante, vale a pena sublinhar isto.

M. Ribeiro Fernandes
31 Mar 2013

1. A alegria e a confiança são decisivas para a afirmação pessoal, quer do ponto de vista da saúde, quer do ponto de vista da criatividade e empenhamento pessoal. O risco da depressão, gerado pela crise, tende para o isolamento e para a indecisão. E sabemos como o risco de suicídio ronda a porta daqueles que já não acreditam numa razão para viver, mais ainda quando uma austeridade sem sentido os esmaga (na Amadora, registaram-se 10,5 suicídios em média por cada 100.000 habitantes e em Almada 17,5 suicídios também por cada 100.000 habitantes). É muito mais difícil superar as dificuldades quando a depressão ensombra a vida, porque falta o impulso da criatividade, o arriscar de soluções e a procura de apoios no grupo.
2. Mas, a alegria e a confiança pessoal precisam do ambiente de coesão familiar para nascer e para crescer. Sem ele, é difícil partir para a procura de apoios ao nível de um grupo mais alargado. A família é a base da vida em grupo, porque só nela há a coesão afectiva, que não se encontra no grupo mais alargado, que é estranho às raízes da construção da personalidade. Por sua vez, a vida em grupo precisa da confiança pessoal e esta precisa da coesão e apoio do grupo familiar. Sem isso, a pessoa dilui-se no grupo como apenas mais um elemento e não como uma pessoa (foi esse o erro fatal do marxismo). E não se sentindo como pessoa, dificilmente alguém se pode tornar num elemento activo e solidário no grupo.
3. Festejar a Páscoa, enquanto adesão pessoal íntima à Pessoa de Jesus Ressuscitado, exprime uma forma de viver; e, como em todas as atitudes pessoais que afectam a nossa intimidade, essa atitude pessoal tende a expressar-se de uma forma social, a começar pelo grupo mais íntimo, que é a família e, a partir, daí contagiar o grupo social onde vive, transformando-se essa atitude num valor cultural social. O modo tradicional de celebrar a Páscoa, a norte do país, tem pois uma expressão cultural própria e diferente do resto do país, embora possa haver elementos comuns, como a forma religiosa e litúrgica de a celebrar nos templos. Mas, os povos do norte vão mais além do espaço dos templos e saem para a rua em grupos organizados, a que dão o nome de Compasso. Vão do templo para as casas.

4. O costume de abençoar as casas de família tem raízes culturais religiosas anteriores ao cristianismo: para os romanos, a família era uma instituição fundamental e sagrada; mas, a visita de casa em casa, o Compasso, tem mais um sentido de anúncio kerigmático da ressurreição do que de bênção das casas. O que dá à festa da Páscoa, com o Compasso de porta em porta, o sentido de alegria não é o significado da bênção da casa, mas o anúncio da ressurreição: levar a mensagem de alegria a cada família. Há terras em que o Compasso se reveste de uma forma ainda mais participativa: as pessoas vão-se incorporando no grupo do Compasso, à medida que ele passa pelas suas casas e vão saudar as pessoas de outras casas, o que estimula o convívio, a alegria e a solidariedade. Toda a população se sente envolvida na festa. Até os familiares que imigraram para outras terras do país regressam, nesta data, à sua aldeia para a festa da Páscoa em família. A Páscoa torna-se numa festa vivida em grupo, a partir da base familiar. Há um almoço especial (a gastronomia pascal é muito rica e variada pelo país fora), há flores pelos caminhos, foguetes e até bandas de música.
Seria uma pena que esta forma cultural dos povos do norte do país celebrarem a festa da Páscoa se fosse perdendo. Isso também depende de quem integra o Compasso, da sua capacidade kerigmática de testemunho e da consciência que tenham do seu significado.
Uma Páscoa Feliz!




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