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Um olhar em redor

Porque alguém me pediu que o fizesse e, confesso, um tanto por desfastio também, acabei por ler o “Último segredo”, romance do pivô da RTP José Rodrigues dos Santos, por sinal objecto de uma censura por parte do Secretariado da Pastoral da Cultura (SPC) logo que o livro foi dado à estampa, que o acusou de escrever sobre o que não sabe. Em causa estaria o facto de, nesse livro, o seu autor apontar alegadas fraudes na Bíblia. Afirmou, este, por sua vez, que a verdadeira fé não pode assentar em mitos e em falsidades, mas na verdade.

Joaquim Serafim Rodrigues
30 Mar 2013

Qual verdade? A que ele descobriu agora? Recordo, a propósito, que já nessa altura Manuel António Pina, reconhecidamente um não crente entretanto já falecido, escritor e poeta de reconhecidos méritos, exprimiu o seguinte comentário: “Justamente por se tratar de matéria de fé, não me parece que se devam fazer números de circo capazes de embasbacar o grande público pagante”.
Atenta esta opinião lapidar, deveriam ter morrido logo à nascença (refiro-me ao livro em questão) quaisquer outras considerações ou perda de tempo com tal obra pretensamente esclarecedora, em definitivo, sobre matéria tão melindrosa e transcendente (atente-se no pretensiosismo do título…), mas o certo é que estes repórteres ligados à informação televisiva têm sempre quem os projecte, ou seja, o próprio meio onde exercem a sua actividade, não havendo por isso (dentro da TV) quem não escreva o seu livro independentemente da sua nenhuma valia. O tempo, contudo, infalivelmente, acabará por lhes reservar o merecido lugar: o limbo do esquecimento!
Prosseguindo, deixo aqui uma pergunta: a que Bíblia se refere o autor? É que a Bíblia católica contém 46 livros, na protestante são 39 (do Antigo Testamento) e o Novo Testamento inclui 27. E, no que respeita à confiança nos escritores bíblicos, depende das convicções pessoais, como tudo o que é da Revelação, pois uma posição de fé não se fundamenta num sistema científico de base experimental, onde as certezas partem de argumentos matemáticos.
Saberá do que fala este pivô da RTP que tem, ou tinha, não sei, por hábito catrapiscar o olho aos telespectadores, no final dos noticiários? Trata-se de um tique, apenas, ou de uma qualquer contracção espasmódica, a qual poderá talvez ser curada sem necessidade de internamento?
Gastou, afirma, quatro anos lendo textos de historiadores e teólogos antes de se decidir pela publicação deste seu último e verdadeiro achado, “segredo”, queria eu dizer. Tempo inútil, desperdiçado, uma vez que já Epicuro (341-270 a.C.) tinha chegado à conclusão da não existência de Deus, mediante um raciocínio bem mais simples que me dispenso de escrever aqui, mas que punha em causa a indiferença de Deus perante os nossos sofrimentos (um completo absurdo), questionando também a sua omnipotência e, outro sim, a sua omnisciência.
Nada mais simples, esforçadíssimo pivô, quatro anos de pesquisas até poder brindar-nos com essa sua inapelável e definitiva obra a que deu o título que a história registará, sem dúvida alguma, como sendo (alfim!) “O último segredo”! Um alívio para todos os não crentes, certamente atormentados, por vezes, com certas incertezas e, além disso, uma contribuição valiosa que poderá arrumar de vez com essa doutrina (agnosticismo) que declara inacessível o absoluto ao espírito humano, o qual deve ficar na dúvida relativamente aos grandes problemas metafísicos, porquanto, Quo erat demonstrandum, o que era preciso demonstrar fê-lo José Rodrigues dos Santos.
E termino com esta incerteza preocupante: será que para o autor em questão dois e dois serão realmente quatro ou vinte e dois?




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