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“O Jogador” de Dostoiévski

Ao contrário do que poderia imaginar-se, há grandes semelhanças entre a literatura e o desporto, mais concretamente o futebol. Dos vários pontos de “contacto” que poderíamos salientar entre esses dois mundos, talvez mereça honras de destaque a existência de “heróis” e de “vilões” na arte literária – a que correspondem, no futebol, “vencedores” e “perdedores”. Na literatura (tal como no cinema, que é uma espécie de “literatura em imagens”), não poderia haver heróis se não existissem os vilões; e no futebol jamais haveria vencedores se não existissem derrotados. E, as mais das vezes, lidamos com “viciados” no heroísmo e nas vitórias, assim como os há na vilania e nas derrotas…

Carlos Manuel Ruella Santos
29 Mar 2013

A importância e a necessidade destes dois tipos de “caráteres” (tanto na literatura como no jogo) é abordada em diversos romances de elevada qualidade estética. Mas é um “processo” analisado de forma magistral pelo escritor russo Fiodor Dostoiévski, no célebre romance “O Jogador”. Trata-se de uma obra onde está presente, como em nenhuma outra da literatura mundial, a compulsiva atração que o jogo provoca no ser humano. Na prática, o jogo é uma espécie de droga legal, que vicia os jogadores e, em última instância, a generalidade dos “voyeurs”.
Não deixa de ser interessante a razão por que Dostoiévski escreveu “O Jogador” (ou melhor: o motivo por que o ditou à sua assistente e companheira fiel, mais tarde sua mulher, Anna Grigórievna) em pouco mais de vinte dias. O escritor russo era um jogador compulsivo. Mais: era um perdedor compulsivo. Porque quanto mais perdia, mais jogava; e quanto mais jogava, mais perdia! E este círculo vicioso acabou por levá-lo à penúria, sendo obrigado a escrever “O Jogador” em menos de um mês para pagar uma dívida contraída com o seu editor. Ou seja: trata-se de um livro, publicado em 1866, que apresenta um fortíssimo pendor autobiográfico…
Poucos leitores saberão que o grandioso Dostoiévski, o sublime autor de “Crime e Castigo” e de “Os Irmãos Karamazov”, foi um homem completamente “agarrado” ao vício do jogo. E menos ainda o imaginam, porventura, fascinado pela tortura da derrota, como um viciado na “arte de perder”.
Como Dostoiévski, porém, não falta quem tenha a compulsão do jogo e, pior ainda, a obsessão da derrota: perder uma vez, mil vezes, um milhão de vezes… até ao ponto de se perder a si mesmo!
Ora, por mais absurda que possa parecer ao leitor a obsessão pela derrota, a verdade é que sem ela não haveria vitórias. Tal como, na literatura e no cinema, a existência de heróis pressupõe a presença de vilões, também no jogo a existência de vencedores pressupõe a presença de perdedores…
É evidente que este “fenómeno” do comportamento humano relativamente ao jogo é de explicação complexa. Tão complexa que poucos amantes do futebol compreenderão, por exemplo, por que motivo se torturam com a paixão por um clube cujas possibilidades de vitória são escassas, sobretudo se falarmos em termos de conquista de campeonatos. Mas não será também esta “compulsão” pela derrota que faz com que o futebol, de facto, seja um desporto tão fascinante?




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