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Deu-nos o exemplo

1 Uma das cerimónias da celebração da Quinta-Feira Santa é a do Lava-Pés. Recorda o gesto de Jesus que, munindo-se de uma toa-lha e de uma bacia com água, lavou os pés dos apóstolos (João, 13, 3-17). E rematou dizendo: «vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também».
 

Silva Araújo
28 Mar 2013

2. Iniciamos hoje a segunda parte da Semana Maior. Da Semana Santa.
Uma coisa é a semana santa do espetáculo e do folclore e outra, a Semana Santa do convite a vivermos o Mistério Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. E a verdadeira vivência da Semana Santa levar-nos-á a seguir os passos de Jesus nesta via-sacra que é – ou deve ser – a vida de cada um de nós. É seguir o exemplo de Jesus, «que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido» (Gaudium et Spes, 3).
 
3. «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (João 13, 35), disse Jesus. E o Vaticano II não deixou de o recordar: «é pela caridade para com Deus e o próximo que se carateriza o verdadeiro discípulo de Cristo» (Lumen Gentium, 42).
O que, realmente, faz falta nesta nossa sociedade, marcada pelo egoísmo e pelo individualismo, são gestos concretos de Amor. Não que os não haja. Veja-se o que fizeram os Escuteiros de Escudeiros, como informava este jornal na segunda-feira passada. Não que não existam pessoas preocupadas com os outros, prestando-lhes os serviços de que necessitam, por mais humildes que sejam. Mas precisamos de mais. De muito mais.
 
4. «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei» (João 13, 34).
O Amor de que Jesus nos fala é muito diferente do amor que muitas vezes se apregoa. É um Amor que é dedicação. É um Amor que consiste em viver para os outros e não à custa dos outros. É um amor que consiste em servir os outros e não em servir-se deles.
 
Amar como Jesus. Amar até ao fim (João 13, 1). Amar sempre, e não apenas em momentos de entusiasmo. Amar até não ter mais que dar: até ao dom de si mesmo.
 
5. Tudo será diferente se quando nos dizemos cristãos formos verdadeiros discípulos de Cristo. Se O imitarmos no dia-a-dia. Se evangelizarmos mais com a vida do que com as palavras. Se dermos o «escândalo» de como nos amamos. Se formos verdadeiramente Igreja, onde os ministérios são uma forma de servir, como lembra o número 18 da Lumen Gentium, e se no serviço descobrirmos a verdadeira grandeza (Lucas 22, 24-27).
 
6. Não seremos verdadeiros discípulos de Cristo se nos servirmos em vez de servirmos. Se aproveitarmos o exercício do ministério para nos pavonearmos ou para criarmos oportunidades de negócio para nós ou para os nossos. Se valorizarmos o ministério mais pela forma como nos apresentamos – que sempre deve ser digna – do que pelo modo como o exercemos. Se nos preocuparmos mais em conquistar simpatias do que em divulgar a mensagem de Jesus. Se, a pretexto de construirmos a unidade, cedermos em questões essenciais. Se entre os diversos ministérios selecionarmos os que mais nos agradam ou mais nos convêm. Se fomentarmos ou favorecermos o culto da personalidade, endeusando-nos ou endeusando os outros. Se fizermos aceção de pessoas. Se lisonjearmos e bajularmos aqueles de quem esperamos poder vir a receber benesses. Se formos muito lestos em denunciar os erros dos pequenos mas passarmos a esponja ou mantivermos silêncio face aos delitos dos grandes. Se falarmos muito em Fé, mas de uma Fé cuja vivência não leva à prática da Caridade.
 
7. Estes dias do chamado Tríduo Pascal poderão – e deverão – dar ensejo a uma cuidada reflexão.
Estamos a preparar a alegria da Ressurreição. Mas esta apenas virá se tivermos a coragem de morrer para tantas coisas que nos impedem de seguir na vida o exemplo que o Ressuscitado nos deu.




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