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O Governo dos últimos dias

Tenho para mim que Passos Coelho não fará qualquer remodelação ministerial. Primeiro, porque para o fazer, teria de afastar Relvas, o que não vai acontecer. Depois, porque já é tarde e não terá, de resto, quem aceite o lugar. Em terceiro lugar, porque isso seria ceder a Portas. Na cabeça do primeiro-ministro já está definido que vai demitir-se, apesar da bondade dos que o têm por resiliente. Está, porém, à espera da melhor oportunidade. A decisão do Tribunal Constitucional, no caso deste se pronunciar positivamente quanto às questões que lhe foram colocadas, seria o melhor argumento. Tinha, assim, um álibi para se demitir. Nenhum governo consegue exercer a sua função, mesmo que tenha grande capacidade de sobrevivência, se a pressão que está sobre si é insuportável, como é o caso.

Luís Martins
26 Mar 2013

Muita da culpa da actual situação é de Passos Coelho. Não fez o que prometeu. Fez aquilo que a maioria dos que votaram no partido que venceu as eleições estava convencida que não faria. Parecia ser uma lufada de ar fresco depois da hecatombe dos governos anteriores, sobretudo os de Sócrates, mas não foi assim e começou a desiludir. E tem continuado, trombada após trombada, até nos pôr contra. A alguns, visceralmente contra. Com a rotina de abalroamentos fiscais aos cidadãos, estragou as expectativas que nele foram depositadas. Mesmo que se mude de tema, a confiança não será fácil voltar. O Governo ficou prisioneiro. Está agora com muito pouco espaço de manobra.
Os maiores pecados de Passos foram, sobretudo, dois: o primeiro, foi fazer aquilo que disse que não faria e o segundo, ir muito além do Memorando de Entendimento com os credores do país. Muitas medidas até se justificavam, mas não foram contratualizadas com o povo na campanha eleitoral. Outras não foram tomadas como fora dito que seriam. Os resultados a que se chegou responsabilizam o Governo, ao mesmo tempo que lhe retiram argumentos. Ninguém pode garantir que os resultados negativos não são a consequência do segundo pecado. Foi tudo desbaratado a um preço demasiado elevado para ser relevado o insucesso. Num instante, tal qual um furacão destemperado que destrói a eito e sem contemplações. Agora, falta só o pronunciamento do responsável quanto ao momento em que vai dar o passo definitivo. Do Presidente já sabemos a resposta: fará como de outras vezes.
Sem resultados, só mesmo um bom anti-depressivo nos ajudará a continuar resignados ao que se passa connosco e à nossa volta, mas nem sequer isso é útil, antes pelo contrário. Acredito que o melhor para o país é voltar a chamar o povo a pronunciar-se. Começar de novo para fazer bem e no respeito pelos compromissos, seja pelos que foram assumidos externamente, seja pelos que venham a ser prometidos internamente. Sem subterfúgios e discursos evasivos. Sem vãs promessas. É verdade que o próximo primeiro-ministro não vai desfazer aquilo que, desde 2011, nos trouxe até aos dias insustentáveis de hoje. Pelo contrário. Ficará até grato a Passos Coelho e ao seu governo por terem dado motivos para fazer oposição e levado o povo a seguir outra opção. Mas, é preciso voltar a acreditar nos governantes e nas suas medidas, o que será difícil, senão impossível, no momento actual, sem uma clarificação do eleitorado.
O grande problema é que não se vislumbra uma verdadeira alternativa. A que se apresentou até agora não reúne consenso nem confiança bastante, face às exigências do momento difícil a que está preso o país. Não chega dizer que se é e se quer ser alternativa. É preciso demonstrar que se tem mesmo soluções, com argumentos para fazer o país sair do estado de depressão em que se encontra. Na tentativa de preparar o futuro que não tardará, alguns desalinhamentos cirúrgicos na maioria que suporta o Governo podem significar que há calendários que se estão a cruzar. Não estranha, por isso, a pressão para que o primeiro-ministro proceda a uma remodelação ministerial. Mas, Passos Coelho não o fará. A não ser para se remodelar.




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