Fotografia:
Quando o trabalho faz sofrer

Redução dos salários; aumento do tempo de trabalho; sobrecarga de tarefas, muitas das quais burocráticas, e de dúbia ou nula necessidade; pressão para a obtenção de resultados inalcançáveis ou para o cumprimento de objectivos absurdos; extrema competitividade no seio do local de trabalho; assédio laboral; eliminação de direitos consagrados desde há muitas décadas. Talvez não sejam propriamente exagerados os que julgam que estamos perante a emergência de um neo-esclavagismo. Nem já, como promessa, o trabalho liberta. E é para quem quer, não faltará quem diga.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
24 Mar 2013

Este novo esclavagismo laboral avança com uma fatiota moderna, confeccionada pelas teorias dominantes da gestão empresarial, que impuseram, por exemplo, um modelo perverso de avaliação dos trabalhadores. A prática, recordava o Le Monde, que, no fim-de-semana passado, dedicou ao sofrimento que ela provoca a maior parte do suplemento “Culture & Idées”, nasceu nos Estados Unidos da América nos anos 70 do século XX e chegou à Europa uma ou duas décadas depois. Começou por se aplicar aos quadros das grandes empresas para, depois, chegar a todas as organizações, que, como é o caso, por exemplo, da escola, da universidade e do hospital, se foram transformando em empresas.

“As medições estandardizadas são muito redutoras: tudo o que não entre na contabilidade não é avaliado”, lamenta a investigadora Françoise Dany. E, no entanto, diz ela, “há inúmeros elementos, num trabalho, que passam despercebidos e são difíceis de quantificar: a capacidade para fazer face a certas dificuldades, o conhecimento profundo do ofício, que vai permitir encontrar soluções originais e de qualidade, o savoir-faire e os segredos da profissão, que se aprendem com a experiência e que contribuem para que o trabalho corra bem. Estes elementos são essenciais, mas não cabem nas grelhas de avaliação. Não se pode resumir uma actividade a números”. O psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours nota também que o trabalho nunca se realiza como se previra. “Há atrasos, incidentes, adiamentos, disfuncionamentos, que obrigam o trabalhador a adaptar-se, a improvisar, a inventar novos processos”. A “tirania da avaliação”, segundo a classificação da filósofa Angélique del Rey, tem incontáveis inconvenientes, um dos quais é ignorar um elemento fundamental do sucesso: o trabalho colectivo.

Para o sociólogo Vincent de Gaulejac, co-autor de um manifesto para pôr fim ao mal-estar no trabalho, o que é novo não é tanto a avaliação, mas a medição: “Um frenesi matemático susceptível de conduzir a situações absurdas”. Novidade é também a vontade de mobilizar a mente de quem trabalha. “No mundo taylorista, a empresa exercia um constrangimento sobre os corpos, designadamente no sector industrial, mas não pretendia saber o que os operários tinham na cabeça. Com o triunfo do management, o esquema é muito diferente: a empresa reclama agora o imaginário dos seus empregados. Eles devem identificar-se com os objectivos da empresa e aderir aos seus valores. A empresa não se contenta com a medição permanente do que o trabalhador faz: ela avalia também o que ele é”.

Christophe Dejours também evoca Frederick Taylor, para referir que o engenheiro que inventou a administração científica das empresas gostaria de ter sido também o inventor da avaliação individual. Mas Taylor não dispunha de meios técnicos para instaurar um dispositivo de vigilância e de controlo. Caberia à informática oferecê-los. Com os computadores, é pretensamente possível registar tudo o que se faz e não se faz. Eles são o instrumento com que Taylor teria sonhado para atiçar uma concorrência inédita entre os trabalhadores.

Esta concorrência provoca imensos desgastes. Afirma Dejours que “no clima de rivalidade criado pela prática sistemática da avaliação, o sucesso do colega torna-
-se uma ameaça. A desconfiança instala-se, é o princípio do salve-se quem puder, que tudo justifica. A solidariedade, a camaradagem e o respeito pelo outro vão sofrendo brechas e acabam por desaparecer”. Para o psiquiatra e psicanalista, quebrando as relações de cooperação e de entreajuda que são indispensáveis para o trabalho, a avaliação individual das performances vai provocar solidão e, desde os anos 2000, novas doenças: burn out, patologias de sobrecarga, depressões e suicídios. Estranho mundo, este, em que tanto se sofre por se ter trabalho, quanto por não o ter.




Notícias relacionadas


Scroll Up