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Do presente ao futuro da Igreja

Não vão muito bem as coisas da Igreja na Europa. E não só na Europa, não obstante as regiões onde se sente menos a crise ou se vê uma renovada vitalidade. As coisas não vão bem pelas mazelas de todos conhecidas, mas, ainda, por uma leitura deficiente da realidade que se vive e consequente dificuldade de uma resposta adequada aos muitos problemas existentes. Se governar é também prever e prevenir, no presente que se vive o futuro não aparece auspicioso. Parece urgente que a realidade se veja e encare com olhos novos e se procurem, com persistente humildade e com as pessoas certas, novos caminhos de esperança.

D. António Marcelino
24 Mar 2013

Abusa-se facilmente da afirmação de que Deus não abandona a sua Igreja. É verdade. Mas esquece-se que a ação prometida e assegurada de Deus pode ser minimizada ou menosprezada pela deficiente mediação humana, o que muitas vezes acontece.
O futuro que se deseja e legitimamente se procura, assenta, como projeto, na memória vivida e consciencializada no presente. É neste que se conjugam e, no possível, se acertam, os dados de um projeto esperançoso. Então, sempre se poderá e deverá confiar na ação de Deus, fugindo de O invocar em vão.
De olhos abertos à realidade eclesial, sem deixarmos de reconhecer os muitos aspetos positivos, vemos que aumenta o número dos descrentes e indiferentes, muitos que, antes, diziam não o ser; diminui, a olhos vistos, o número dos praticantes de culto; são cada vez menos os que pedem o Batismo e muitos batizados dispensam o Matrimónio, porque Deus não conta nesta opção de suas vidas; assim, são muitos os que preferem ao sacramento do Matrimónio a união de facto e o casamento civil; os lugares sociais mais determinantes estão vazios de cristãos assumidos; é manifesta a crise vocacional, tanto para o sacerdócio ministerial, como para a vida consagrada, deixando a braços a Igreja com problemas de toda a ordem; muitos jovens se afastam da Igreja e das suas orientações, mesmo que, ciclicamente, participem em suas atividades festivas; aumenta o número de divórcios e acentua-
-se, sempre mais, o divórcio entre a fé e a vida; é visível o cansaço e a desmotivação, na Igreja, de muitos servidores a tempo inteiro; a compreensão e a aceitação crítica dos tempos novos não pesa no caminho normal das opções pastorais; as Igrejas Locais e as Conferências Episcopais são abafadas pelo centralismo romano; em alguns casos, idosos lúcidos e criteriosos só são os cardeais até aos oitenta. A Igreja parece navegar em contra corrente das pessoas e a sociedade…
Sabemos que vai ainda muita gente à Eucaristia. Porém, reconhece-se, que, desde longe, a maior parte dos batizados vive à margem do templo. Não podemos esquecer a generosidade e a disponibilidade apostólica de muitos cristãos, conhecidos ou anónimos, e a sua preocupação de formação e de vivência evangélica, e a entrega incondicional, ao serviço do Reino, de muitos responsáveis pastorais. Não obstante, hoje, a Igreja perdeu, em muitos aspetos e lugares, credibilidade e o número de pagãos batizados, como hoje se insiste em dizer, é uma multidão que dispensa Deus e organiza a sua vida segundo critérios e valores alheios ao Evangelho de Cristo.
Vai-se pensando, com certa ingenuidade, que mudando o papa, o bispo ou o padre, as coisas também mudarão, o que, no essencial, não acontece. Houve na Igreja, durante séculos, e ainda há, um certo sebastianismo que alimenta sonhos e paralisa esforços. Em muitos casos, a ilusão é senhora que comanda. Operam-se mudanças cosméticas que fomentam consolações passageiras e iludem os menos habi-
tuados a pensar e a ir além do superficial. Depois, tudo vai voltando ao mesmo, como o festival de fogo de artifício nas festas populares. Deslumbra por momentos, mas não deixa porta válida para ir mais longe.
A sociedade moderna ganhou autonomia no ser e no agir. A Igreja, entretanto, foi-se apegando ao passado, canonizou referências e soluções clericais, esqueceu apelos e desafios em campo, lamenta os desvarios do mundo, profere, ainda e por vezes, os seus anátemas, e parece esperar que lhe chegue, de bandeja, a solução dos problemas a que não pode fugir. Este, porventura, é o maior obstáculo à renovação eclesial.
As dificuldades não são só da Igreja, mas é destas que falamos. Não deixarei de dar a minha achega de pastor, a esta situação, não pareça que fico em apreços de comentador diletante. O meu amor à Igreja e o compromisso que nela me assiste não deixarão que assim aconteça. Agora com o novo Papa reaviva-se a esperança.




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