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Um olhar em redor

Com aquela sua teimosia habitual ou, pior ainda se fosse esse o caso, auto-convencimento, o primeiro-ministro que temos entra-nos pela casa dentro via TV, falando-nos de um país que não é o seu nem, muito menos, o nosso, o da maioria dos portugueses. Indiferente à realidade que cada vez mais o cerca e se traduz num isolamento que o envolve não apenas a si como, aliás, aos restantes membros do Governo, com esse inconcebível ministro das Finanças à frente, o qual, e sem ofensa, nem parece ter sangue nas veias tal o tom monocórdico como anuncia as suas medidas e, bem assim o falhanço das mesmas, o primeiro-ministro, dizia, manipula constantemente factos, acontecimentos e números irrefutáveis (teimosia ou obsessão inata?) que contradizem as suas afirmações, face às desigualdades sociais cada vez mais acentuadas que atingem e de que maneira o nosso povo, como se de um anátema ou estigma infamante se tratasse e o levam, não poucas vezes, ao desespero traduzido em reacções extremas, que não reproduzo aqui por respeito à comiseração, tais os sentimentos que nutro por quem é atingido por semelhantes tragédias.

Joaquim Serafim Rodrigues
23 Mar 2013

Na origem de tais situações encontra-se o aumento imparável do desemprego que atinge por vezes um mesmo casal, os salários de miséria que levam muitos daqueles que mal sobrevivem a recorrerem à caridade alheia, tudo isto perante a manutenção de cargos e postos que permanecem intocáveis, auferindo remunerações chorudas, num descaro perfeitamente ofensivo (dispenso-me de utilizar aqui, por decência e como sinónimo, outro vocábulo ainda mais rasca) para com todos aqueles compatriotas que já citei, completamente votados ao ostracismo e entregues à sua sorte.
Face a esta verdadeira desolação Passos Coelho enaltece o seu Governo (enaltecem-se uns aos outros), alardeiam triunfos nunca consumados, escamoteiam insucessos, passam por cima de promessas feitas e jamais cumpridas, negando a evidência que é esta e não outra: uma inflação asfixiante, fazendo desaparecer praticamente o poder de compra de cada um; um crescimento económico rondando o nível zero e, cúmulo dos cúmulos, há quem afirme que todas estas medidas que nos apertam qual espartilho excedem até tudo aquilo que a própria troika exige de nós! Distingue-se assim este Governo, além do mais, por ser ainda mais papista que o Papa.
A classe política que temos desacreditou-se a si própria. Como prova disto, que não é de agora, atentemos nos debates travados nesse venerável (assim deveria ser) hemiciclo onde são decididos, para o mal e para o bem, os nossos destinos, mediante as leis que de lá saem: membros do Governo e da oposição, deputados deste ou daquele partido, verberam-se mutuamente, de mistura com atitudes impróprias de quem se devia sentir honrado por ter assento numa Assembleia da República eleito pelo povo, para o servir devotadamente e não para olvidar os interesses legítimos desse mesmo povo, perdidos normalmente em discussões inúteis e mesquinhas. Os romanos da decadência só pediam aos imperadores pão e circo. Circo não nos falta, atendendo ao que se passa no Parlamento, onde proliferam ilusionistas, trapezistas e contorcionistas, sem talento, contudo, para serem aceites, sequer, num desses circos ambulantes que vão agonizando diariamente pelos caminhos, vítimas igualmente desta crise que nos assola a todos.
E, já agora, deixem-me citar Sócrates, o filósofo grego e não o outro, de má memória: “Juntem dois ignorantes e teremos um sábio”.
Acho que chega, por hoje.




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