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Quando os espaços encolhem

1 Recebi de um amigo duas imagens de duas estações de televisão a mostrarem duas manifestações no Terreiro do Paço. Uma de caráter religioso, quando o Papa Bento XVI esteve em Lisboa, em 2010; outra, de cariz político liderada pelo Movimento «Que se lixe a Troika», na tarde de 2 de março. Ambas mostram cheio – na primeira, cheiíssimo; na segunda, não sei se tanto, mas admitamos que sim – o Terreiro do Paço.

Silva Araújo
21 Mar 2013

Relativamente à primeira, disse-se que teriam estado ali entre 80.000 e 100.000 pessoas. Quanto à segunda, que teriam estado umas 500.000. Como é que, para encher o mesmo espaço, num dia são precisas 100.000 pessoas e noutro dia, 500.000? Dar-se-á o caso de, o mesmo espaço, para uma manifestação de fé católica, encolher e para uma manifestação política, esticar?

Lamento dizê-lo, mas há informações que, por amor à verdade, deviam ser dadas com mais cuidado.
É muito possível afirmar que a um jogo de futebol assistiram tantos milhares de pessoas. O número dos lugares e de bilhetes vendidos a isso conduz. Agora numa manifestação, num local onde o acesso é livre, fazer afirmações desse género, pode revelar uma certa dose de aventureirismo e de facciosismo. A não ser que tenha havido o cuidado de medir o espaço e de ver quantas pessoas cabem por metro quadrado, mas mesmo assim…
Também aqui, uma coisa é a informação e outra, a propaganda.
 
Pelo que se viu, em relação às tais duas manifestações ocorridas no Terreiro do Paço, nem todos usaram a mesma máquina de calcular.
É possível que os nossos olhos, em lugar de verem a realidade, vejam o que gostaríamos de ver. Que, em vez de narrarmos o que aconteceu, narremos o que gostaríamos tivesse acontecido.
 2. Isto levou-me a pensar no modo com às vezes se informa da vida da Igreja ou de pessoas da Igreja. Há-os que nelas só veem defeitos como há os que nelas só descobrem virtudes.
Tenho a consciência de que também sou Igreja. Subscrevo a afirmação muitas vezes repetida de que, formada por homens, a Igreja é santa e pecadora. Quem dela falar com justiça deve reconhecer uma e outra coisa. Mente quem em homens da Igreja só vê defeitos como mente quem neles só encontra virtudes. E quem quiser falar da Igreja que fale com verdade. Que saiba ver e salientar tudo e não somente os aspetos que lhe interessa, às vezes convenientemente empolados.
Há em homens da Igreja pecados, e a verdade, por que tanto se bateu Bento XVI, manda reconhecê-los. Mas nos mesmos homens também há muitas virtudes, e imperioso é reconhecê-las também.
Sei que isso não agrada a certos fazedores de opinião, mas, se quiserem ser honestos, deverão reconhecê-lo e não terem pejo de o afirmarem claramente.
 
Uma pergunta só, e para terminar: já repararam no que seria a situação de muitos portugueses se, no cenário de crise que atravessamos, pessoas e instituições ligadas à Igreja, trabalhando muitas delas em regime de total voluntariado, cruzassem os braços e deixassem de prestar assistência a tantos que dela precisam? Fala-se disso?
Peguem numa calculadora que não esteja viciada, façam as contas e digam.




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