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“A visita da velha senhora”

Por um inexplicável acaso da vida, uma amena e solarenga tarde de verão dos inícios da década de ‘80 apanhou-me sentado numa esplanada da cidade suíça de Neuchâtel. Fora convidado a passar umas férias em Sion, na casa de um casal amigo. E para combater a morrinha de um domingo, decidi deslocar-me a Neuchâtel, a fim de apreciar o seu belo lago e assistir a um jogo de futebol entre o N. Xamax (então, uma das mais poderosas equipas da Suíça) e o conhecido Servette.

Victor Blanco de Vasconcellos
21 Mar 2013

Depois de saborear a beleza do grande lago e um frugal mas apetitoso almoço num restaurante italiano, fui mastigar um solitário café numa das esplanadas da cidade, a “fazer tempo” para o jogo. E foi então que reparei no homem que estava sentado na mesa da frente…
De uma taça opaca ia ele beberricando um líquido transparente. E na boca suportava um grosso charuto, cujo fumo ricocheteava nas lentes dos seus óculos gigantescos, assentes num nariz de abas largas. Era um homem avantajado, de calva já pronunciada. Parecia ser septuagenário, mas talvez o fato escuro lhe aumentasse a idade. E entre cada sorvo no charuto e cada golo na taça, o homem viajava o olhar pelas páginas de um jornal escrito em língua alemã.
Vim a saber, pela simpática empregada do café, que se tratava do pintor, romancista e grande dramaturgo suíço Friedrich Durrenmatt (1921-1990). “Mora aqui perto, numa bela casa…”, elucidou-me ela, num francês cantado e lento.
Confesso que fiquei boaquiaberto. E fascinado. Ali a poucos metros de mim, jovenzinho que eu era na altura, estava o grande Durrenmatt! Dele conhecia apenas o livro “Grego Procura Grega”, numa edição (dos anos 60) da Globo. Era um belo e satírico romance, de pouco mais de uma centena de páginas, protagonizado por um nome que jamais esqueci: Arquíloco!
Empurrado pelo juvenil fascínio daquele “encontro” presencial, regressado a Braga, acabei por ler quase tudo quanto Durrenmatt publicara. Entre essas obras inclui-se a peça teatral “A visita da velha senhora” — um drama “brechtiano”, escrito por Durrenmatt em 1957, centrado na terrível personalidade da vingativa senhora Clara Zahanassian, a mulher mais rica do mundo que regressa à sua cidade-natal, Gullen, para a resgatar da bancarrota, da miséria, da fome, da revolta social… Só que se trata de um “resgate” financeiro que ela disponibiliza à custa dos mais elementares direitos dos habitantes de Gullen!
Veio-me agora à lembrança o antigo “episódio” da esplanada de Neuchâtel porque a peça “A visita da velha senhora” vai ser exibida no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, no próximo dia 30 (de março), às 21h30. Trata-se de uma peça tão fascinante, tão dramática e sobretudo tão atual que nenhum português a deveria perder. Porque a cidade de Gullen mais não é do que… o Portugal de hoje!




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