Fotografia:
Comte e a Lei dos Três Estados

O positivismo é o resultado do estado da mente, ao afirmar, com base na observação sensorial e experimentação, que são unicamente os factos da experiência, tanto externa como interna, o fundamento do conhecimento científico. Para lá desta experiência, nada mais podemos conhecer. O espírito humano, segundo Comte (1798), por sua natureza, tem necessariamente de transitar por estes três estados, teoricamente distintos: o estado teológico ou fictício, o estado metafísico ou abstrato e, por fim, o estado positivo ou científico.

Benjamim Araújo
20 Mar 2013

Antes de abordar o significado dos “estados” exigidos pelo espírito humano, como ponto de partida, vamos definir as categorias de “ordem”, “progresso” e “estado”. A “ordem” refere-se à unidade, conexão e estrutura em que se encontra, numa dada época, a sociedade, conferindo-lhe estabilidade. O “progresso”é a passagem de determinada época para outra ou, como diz Comte, é o desenvolvimento da “ordem”. O “estado” é, segundo Comte, a interna unidade sistemática e inte-
lectual, fundamento da vida social. Em todos estes estados, o espírito humano impõe, sempre, uma ordem progressiva.
Conhecer é próprio do espírito humano. Não é de estranhar, então, que o espírito investigue o porquê dos fenómenos. O mais antigo porquê do conhecimento dos fenómenos, o espírito foi encontrá-lo nas forças teológicas, explicitamente, no fetichismo, politeísmo e no monoteísmo. Este é o “estado teológico”. Abandonado este estado, o espírito vai encontrar a razão dos fenómenos nos poderes naturais, mais concretamente na “Natureza”. A este estado, Comte dá-lhe a designação de “estado metafísico”, com todos os seus poderes de rutura, derrubamento, afastamento e aniquilação do estado teológico, preparando assim o caminho para o “estado positivo”.
O espírito humano chega agora, após o derrubamento do “estado metafísico”, ao último e definitivo estado, o “estado positivo”. É neste estado, diz Comte, que a humanidade deve permanecer para sempre.
Vou espalhar, por aqui, como o semeador, algumas caraterísticas do “estado positivo”. Por positivo deve entender-se como um saber dos factos. É um saber real, útil, preciso, certo, organizado e relativo. Os factos ou fenómenos são concretos e singulares, para além dos quais não há outro conhecimento.
A teologia é substituída pela antropologia. Deus é, então, substituído pela humanidade com o nome de o “grande ser”. O grande ser são os homens do passado, do presente e do futuro que contribuíram ou vão contribuir para o progresso e felicidade do homem. Na metafísica, o abstrato (essência) é substituído pelo concreto (o fenómeno) e o universal é substituído pelo singular.
O positivismo é uma filosofia muito negativa com as suas janelas abertas para o agnosticismo, ceticismo, utilitarismo, relativismo, ateísmo, reducionismo.
À lei dos três estados de Comte, vou contrapor a lei dos quatro estados. Começo precisamente pelo “estado positivo” de Comte; ao segundo, por onde vou passar, vou apelidá-lo “estado transcendental”; o terceiro vou denominá-lo “estado transcendente”; ao quarto, definitivo e completo, vou dar-lhe o nome de “estado da unidade”. Por imperativo do Uno, estão banidas, aqui, as ruturas, desmoronamentos, rejeições, negatividades.
Vou desfiar o novelo complexo dos estados, começando pela humanidade, “o grande ser”, integrado já no “estado positivo” de Comte. Porém, o grande ser é, para nós, o nosso autêntico, concreto e singular autónomo ser. Este ser é autónomo e livre e nele está imanente o poder vital de se relacionar. É amor e luz; paz e felicidade; vida e sabedoria. Traz, enfiada no dedo, a aliança da unicidade e, no pescoço, usa o colar da verdade e da justiça. Vou designar este ser por “estado transcendental”. À presença de Deus que, sentado na sua cátedra, nada desmorona, desvaloriza ou rejeita, mas tudo ama, vou chamar “estado transcendente”.
O espirito humano é o manifestador da energia vital do “grande ser”, isto é, do nosso autêntico ser. O espírito humano é um instrumento nas mãos da pessoa. Esta vai instituir relacionamentos com o “estado positivo”, ajustados à identidade do ser autêntico, indicando-lhe qual o seu retorno e, para a sua ação, qual o seu espelho. O mesmo espírito, mergulhado na contemplação, vai estabelecer, através da pessoa, relacionamentos com o estado transcendente (Deus), trazendo-O para o estado transcendental.
Agora, no “estado da unidade” vão estabelecer-se, entre os três estados (positivo, transcendental e transcendente) a união, ajustamentos, cooperação e sintonia definitivos. É desta unidade, expurgada de todas as forças que afrontam o ser, que tem de sair todo o labor social, para bem da humanidade.




Notícias relacionadas


Scroll Up