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À beira da Primavera

Foi mais demorada do que as anteriores, esteve suspensa até à aterragem do avião que trouxe Portas de regresso ao país e colocou à tona os erros de decisões imprudentes. A síntese da última avaliação da troika podia ser feita assim: a culpa do desastre iminente do país é do Governo; têm razão aqueles que insistiam em como o ajustamento orçamental sem economia haveria de dar mau resultado. Clarinho como água. Os números falam por si, aliás, já falavam. Várias provas estão agora à vista de todos.

Luís Martins
19 Mar 2013

Culpados? Há-os, com toda a certeza. Os que assinaram o Memorando, Gaspar e todo o Governo e quem podia e devia ter posto os pontos nos ii já há mais tempo. Mas será ao Executivo a quem se pode atribuir a culpa maior pelo insucesso nos resultados. Nós fizemos o que nos foi exigido. A dose é que foi sempre maior do que seria razoável, apesar dos muitos e sucessivos conselhos avisados dados de borla ao Governo. Mas nem seria necessário. Não era preciso ser-se especialista para se perceber que o que é demais é erro e, logo, que o brutal programa de ajustamento inevitavelmente conduziria a um depauperamento dos portugueses em geral e ao desmantelamento da economia do país. Está prestes a chegar a condenação. O Governo vive agora o seu calvário depois de termos estado nós todos a sofrer ingloriamente.

Depois do experimentalismo no primeiro exercício, o Governo insistiu na dose, convencido das suas teses, ou, o que é grave, por arrogância pura. Os resultados foram aparecendo, sempre mais negativos do que os anteriores. Acabaram de ser certificados pela troika, que culpou apenas o Executivo. Temos um orçamento de Estado aprovado há três meses que já não servirá para nada. Pode até ser rasgado. Não vai ser seguido. Simplesmente porque, como era esperado – ao que parece, menos pelo Governo –, os pressupostos escolhidos para a elaboração do documento eram falaciosos e quando assim é as contas não podem dar certas. A economia real está em fase pré-falimentar. O desemprego não dará tréguas nem sossego a ninguém. E não será com impulso jovem, impulso adulto ou outro impulso do género que o problema se resolverá. Simplesmente, porque as empresas, antes disso, precisam de sentir que há procura interna.

Perante a situação, não se pode culpar o Memorando. Se ele era mau, porque se subscreveu? Se estava mal desenhado, como agora se diz, porque se carregou nas tintas? Estou convencido de que a diferença nas sondagens recentemente publicadas só não arrasam os partidos do Governo porque os socialistas resolveram relevar as asneiras de Sócrates que nos conduziram ao precipício. De lá para cá, as melhores práticas foram ignoradas. A dívida é hoje muito maior, apesar dos enormes sacrifícios, do aumento da pobreza e da insatisfação geral. Há quem esteja “incomodado” com o “fracasso” de Vítor Gaspar, mas sem razão. O contrato estabelecido entre os partidos do Governo não pode valer só para o que interessa e ficar prejudicado para aquilo que não traz vantagem a um dos parceiros. O Executivo é da parceria, não de um ou de outro dos parceiros. Por isso, a falta de temperança com que se pretende agora acusar Gaspar, não colhe. O pecado é do Governo no seu todo. Não se pode pedir boleia e depois fazer de conta que não se estendeu o polegar. 

Falou-se no último fim-de-semana de que a Primavera está a chegar. Sabemos que chega no último terço do mês de Março e com ela estarão por cá também as andorinhas. São elas, de resto, quem anunciam a mudança de estação. Mas a conversa tinha mesmo a ver com outras mudanças. Talvez porque um dia destes alguém terá dito a Seguro o que Marco António disse a Passos Coelho: que ou é agora ou então será Costa o próximo Primeiro-Ministro. Não se espere, contudo, que se pode passar do oito para o oitenta. Quem vier a seguir não vai poder passar da austeridade em que estamos para um regabofe semelhante ao do tempo de Sócrates. Por mais que apertem as saudades. Pessoalmente, não as sinto. Antes pelo contrário.




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