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Os militares agitam-se

Os militares andam agitados. E as perguntas que se fazem são estas: seriam capazes de lutar contra o espírito do 25 de Abril, género Kramer contra Kramer? Isto é, seriam capazes de desencadearem um novo golpe militar apenas e só para defender privilégios de classe e não para defender a liberdade? Atraiçoariam a democracia que ajudaram a restaurar? Parece-me que não. Os sacrifícios que a crise obriga não são piores nem maiores dos que são impostos a todos os portugueses, mormente a todos os funcionários públicos.

Paulo Fafe
18 Mar 2013

Penso que a causa é de sensibilidade ofendida. Os militares estiveram na ribalta de muitos acontecimentos portugueses, foram fautores da restauração da democracia e dignificaram-se pelo seu comportamento no passado. Ganharam assim, em conceito próprio um certo narcisismo, alma de primeira fila, onde as honras e considerações formaram um perfil de passadeira vermelha. Agora veem-se como atores que se vão confundindo com o cenário do fundo. Da ribalta têm saudades.  E sentem isto com a amargura de uma ingratidão. Os militares na reserva sentem por sua vez o peso da inutilidade. A inutilidade é vazio onde se não repercutem os ecos do passado que não as  palmas do presente. Condecorações de lapela e agora joias de guarda-joias. Tudo isto, quer dizer, estas mudanças, cria e acrisola uma sensibilidade que atira para a revolta. Cabe aos responsáveis pelas forças armadas tratar os reservistas com a consideração que o passado justifica e os do ativo com a conversação negocial que a crise exige. Mas os militares terão que compreender que a crise é para todos e que a democracia não pode fazer portugueses obrigacionistas e portugueses acionistas do OE. Temos de compreender todos que as redomas onde se colocavam alguns, partiram. E quem as partiu? Foi o nivelamento educacional que eliminou os fossos entre pessoas e desenvolveu o relativismo determinando que todos somos relativamente importantes na defesa da soberania nacional. Os militares na defesa territorial, os professores nas escolas, os investigadores que investigam, os engenheiros que engenham, isto para falarmos em profissões equiparadas, são todos importantes na defesa da soberania nacional. A soberania é um todo e como se diz em sociologia o todo é maior que a soma das partes. Os dentes trituram, o estômago digere, os intestinos fazem a absorção dos alimentos e assim se faz a saúde do corpo. A democracia só se realiza quando iguala e não quando distingue ou privilegia. Quando corporativamente vejo lutar para se ser diferente, entendo que esses atores estão fora da democracia. Assim como quando evocam dificuldades e responsabilidades do exercício na profissão para reivindicarem exceções. Os militares, os professores, os médicos, quando cada um escolheu a profissão, sabiam dos seus perigos, remunerações e exigências. São voluntariamente profissionais; escolheram em liberdade e nada lhes foi imposto. De que se queixam então? Querem ser exceção porque correm perigo ou administram numa cátedra? E quem os obrigou a ser o que são? Tomara eu ser aquilo que alguns julgam que são. A soberania nacional não se limita ao campo de batalha donde “guerra inda não soa”, alarga-se não se afunila nesta ou naquela função; estende-se a todos os ramos da atividade humana como árvore frondosa. Só a título exemplificativo: nos tempos que correm a economia e finanças lutam pela soberania nacional. As suas armas são diferentes das que disparam mas não são menos importantes que elas. Nós estimamos muito os militares mas não lhes outorgamos qualquer diferença, ou supremacia de uma outra qualquer profissão comparável.




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