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Uma verdade finalmente a descoberto

Afinal a Igreja é orientada por pessoas normais que envelhecem, se cansam, adoecem, pedem ajuda, acertam e erram. O gesto de Bento XVI pôs a descoberto, não com teorias mas como testemunho que, realmente, assim é. Durante séculos a Igreja teve a preocupação de mostrar o contrário, mesmo quando as mazelas dos hierarcas se tornavam patentes. Nestes parecia que tudo era virtude, força, coragem, bondade, heroísmo. É verdade que isto foi também real em relação a muitos papas e bispos, tal como o narra a história. Porém, mazelas não faltaram e, sempre que alguém aparecia menos perfeito, logo se procurava a quem culpar. Se os ataques e as críticas eram justificados, logo se falava dos inimigos da Igreja.

D. António Marcelino
17 Mar 2013

Ver um padre ou um bispo a confessar-se, como qualquer cristão, deixava as pessoas perplexas, pois que, habitualmente, não o faziam em público. O padre é confessor, não é pecador… Não convinha que se mostrasse como tal.
Há um tempo, porque muitos teimavam no mesmo sentido, Deus foi permitindo, para purificação da Igreja, verdade da sua imagem e bem da sua missão, que pecados ocultos se tornassem conhecidos, que dos julgados intocáveis se vissem os pés de barro, que a riqueza da normalidade humana se manifestasse nos homens da Igreja. Por fim, que um Papa dissesse à Igreja, com eco inevitável na sociedade, que a sua idade e debilidade, o levavam, em consciência, a concluir que já não tinha condições para conduzir a Igreja e cedia livremente o seu lugar, para que outro pudesse ser, de modo pleno e permanente, servidor fiel do Povo de Deus.
O mundo parou a admirar e a agradecer este gesto profético, que repunha os responsáveis da Igreja no plano da verdade. Se recuarmos umas décadas veremos que houve dioceses com bispos idosos e doentes, sem condições de as conduzir a bom termo. Situações que causaram muitos estragos pastorais. Então o bispo, tal como o Papa, era para sempre. O Vaticano II, regressando ao Evangelho, deixou claro que, na Igreja, a hierarquia não é poder, mas serviço. Logo se introduziram normas para evitar situações, tanto de bispos como de padres/párocos, que levassem as comunidades cristãs a becos sem saída. Marcou-se idade para apresentar a resignação, embora sem consideração concreta pela situação de cada um. Caiu–se, então, na dispensa automática de muita gente válida, mas a lei não atingia o Papa. Pela carência de padres, muitos deles, com idade avançada e acusando limitações, continuaram à frente de paróquias com muitos problemas e não poucas exigências pastorais. Pude ver o Papa incomodado ao falar a bispos eméritos mais novos do que ele, foi o meu caso, e sinto, como bispo, igual incómodo ao ver párocos mais velhos do que eu, ainda carregados com responsabilidades pastorais, significativas e exigentes.
João Paulo II, que se manteve lúcido até ao fim, quis, mesmo com um manifesto desgaste, dar testemunho de um serviço sem prazos e do respeito que merecem os mais velhos, que a sociedade arruma, sem amor nem gratidão. E é de respeitar a sua opção.
Nada, porém, vai ficar na mesma depois do gesto de Bento XVI que, como é óbvio, não abriu caminho à inutilidade, sua e dos em iguais circunstâncias, mas recordando o sentido do serviço na Igreja. Disse que há outras maneiras de servir o Povo de Deus, que, não sendo em lugares de comando, são presença e ação fraterna, a estimular e a agradecer. A Igreja é comunidade de pessoas, não de personagens. Na vida concreta todos podem e devem servir, cada um segundo as suas capacidades. Não se pode arrumar ninguém, nem ninguém se pode arrumar a si próprio. Persiste para um hierarca, até ao fim da vida, a fonte de onde dimana a vocação, a capacidade e o dever de servidor: o Batismo e o sacramento da Ordem.
Tudo isto recomenda que, ao pensarmos no novo Papa, não o endeusemos, e nos dispamos de sentimentos de messianismo ou do pensamento de que a Igreja só avança com pessoas ultra perfeitas. A Igreja dos crentes, comunidade que, pela sua fé, beneficia da graça da salvação em Jesus Cristo, estará sempre ao serviço da edificação do Reino, com pessoas de muita fé, mas pes-
soas normais. Esta edificação far-se-á sempre e só, em comunhão, com a força de Deus e as limitações humanas. Tudo isto tem luz própria a partir do mistério da Encarnação. Para realizar a Obra salvífica do Pai, Jesus aceitou as limitações da natureza humana, pediu ajuda e Ele mesmo foi a mão estendida aos que dela precisavam. E escolheu para lhe suceder gente simples e normal a começar por Pedro, o pescador.
Nunca antes foi tão clara esta exigência de verdade que se tornou condição credível da Igreja e da sua missão no mundo. Humanizando ou evangelizando, nunca o poderá fazer senão com a luz da fé, as vestes da normalidade e o testemunho da verdade.




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