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O primeiro livro que ele escreve desde o último que escreveu

Américo Tomás, como os mais novos desconhecerão, foi, no século passado, Presidente da República portuguesa. Ficou conhecido por frases com uma lógica irrepreensível. Era almirante e profundo conhecedor das coisas dos mares e dos oceanos, matéria sobre a qual era capaz de se pronunciar com invulgar erudição, como quando, em certa ocasião, disse que a Madeira era uma ilha e, como tal, estava rodeada de mar por todos os lados. Tomás tem hoje, como facilmente pode comprovar quem estiver atento ao que se diz nos meios de comunicação social, abundantes epígonos. Uns são políticos, outros não. Entre este último grupo, encontra-se um mitómano bizarro que periodicamente perpetra uns livros imprestáveis.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
17 Mar 2013

No Diário de Notícias de quinta-feira, foi convidado a perorar sobre a eleição papal. Apresentado como um “especialista em questões do Vaticano e profundo conhecedor dos bastidores da Santa Sé”, a criatura, intitulada Luís Miguel Rocha, instada a pronunciar-se sobre o facto de o Papa “ser de um continente que nunca teve um escolhido”, respondeu que é muito importante ser da América Latina “porque percebe bem o mundo da América Latina”.

Quando alguém diz que é importante o Papa ser da América Latina porque percebe bem o mundo da América Latina, fica-se a perceber que, de facto, apenas podemos estar perante um “especialista em questões do Vaticano e profundo conhecedor dos bastidores da Santa Sé” com uma ciência de raciocínio semelhante à do almirante.

Américo Tomás disse um certo dia que se estava a comemorar em todo o país a promulgação do despacho número cem, um texto de grande importância, a que foi dado esse número, não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriormente promulgados. O “especialista em questões do Vaticano e profundo conhecedor dos bastidores da Santa Sé” não teve idêntica sofisticação lógica para constatar que este é o ducentésimo sexagésimo sexto Papa não por acaso, mas porque, antes dele, já tinha havido duzentos e sessenta e cinco Papas.

Lendo o Diário de Notícias, fica-se ainda a saber que Rocha, como é da praxe dizer-se nestes casos, cometeu um novo livro. Parafra-
seando Tomás, que, em determinado sítio, garantiu: “É a primeira vez que cá estou desde a última vez em que cá estive”, é o primeiro que escreve desde o último que escreveu.
No blogue O Bibliotecário de Babel, José Mário Silva, que é também poeta e crítico literário do Expresso, escreveu há já alguns anos sobre este indivíduo que goza de assinaláveis e misteriosas regalias mediáticas e editoriais. No texto, “Uma fraude chamada Luís Miguel Rocha” (http://bibliotecariodebabel.com/geral/uma-fraude-chamada-luis-miguel-rocha/), contava que tinha reproduzido “uma informação veiculada pelos serviços de ‘assessoria’ (whatever that means) de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa, segundo a qual o The New York Times teria convidado o escritor português a escrever um artigo de opinião sobre a morte do Cardeal Albino Luciani (João Paulo I), tema do seu livro”. A publicação, dizia-se, “aconteceria na última semana de Setembro, ‘por altura dos 30 anos da morte’ de Luciani”. José Mário Silva diz ter concordado, na altura, “com alguns dos comentadores que levantaram sérias dúvidas sobre tudo o que diz e faz Rocha, uma figura obscura, saída não se percebe bem de onde e que se calhar até nem é um testa-de–ferro mitómano e burlão, mas parece mesmo um testa-de-ferro mitómano e burlão”.

O crítico literário resolveu tirar “a prova dos nove”. “E foi isso que fiz agora mesmo. Vasculhando a edição de hoje, 29 de Setembro, do The New York Times, não encontrei o mínimo vestígio de Luís Miguel Rocha ou do artigo de opinião sobre a morte do Papa João Paulo I. Rocha evoca os 30 anos da morte do Cardeal Luciani no seu site, mas nem se dá ao trabalho de explicar o que terá acontecido ao suposto texto encomendado pelo NYT, tal como nunca explicou outras promessas bombásticas que ficaram por cumprir”. José Mário Silva conclui: “Disto tudo, o que se retira é que Luís Miguel Rocha mente descarada e repetidamente. É, em todos os sentidos da palavra, uma fraude literária. Uma fraude literária à espera que alguém se dê ao trabalho de o desmascarar de vez”.

Nas montras das livrarias já está o primeiro livro de Rocha depois dos anteriores. Os monos de Rocha tratam de coisas obscuras, mas não há enigma maior do que haver quem lhe dê crédito. Numa altura em que a fraude mais noticiada tem sido a venda de carne de cavalo em vez de carne de vaca, o que é,
realmente, notícia, é saber que é possível encontrar o tal Rocha nas páginas de um jornal. Como “especialista em questões do Vaticano e profundo conhecedor dos bastidores da Santa Sé” ou como escritor.




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