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Um olhar em redor…

Se é que o prezado leitor concorda comigo, deixemos, por agora, esta calamitosa e deprimente situação económica que nos avassala a todos (embora muito mais a uns do que a outros, como sabemos), podendo afirmar-se, sem traço de exagero, que nunca como agora o nosso país se afundou tanto: sem políticos credíveis e competentes, as instituições não funcionando ou funcionando mal (e cada vez pior), a incompetência generalizada a par de uma enorme perda de valores grassando por todo o lado, a nossa auto-estima praticamente de rastos uma vez subjugada às imposições de uma troika impiedosa e prepotente, com os governantes que temos aceitando, subservientes, tais condições, como se tudo aquilo que nos estão fazendo pagar desta forma estivesse escrito na pedra.

Joaquim Serafim Rodrigues
16 Mar 2013

Não está, até porque não é igual este tratamento relativamente a outros países em condições semelhantes ao nosso. E os que mais sofrem, com esta crise sem precedentes (refiro-me agora às pessoas, a todos aqueles que se vêem obrigados a viver com pensões de miséria), perante um Governo perfeitamente insensível a tudo quanto se passa à sua volta e, acima do mais, incapaz de repartir “o mal pelas aldeias”, mantendo, por outro lado, privilégios intocáveis, sendo disso mostras a máquina pesadíssima do Estado que temos e sempre tivemos, sob a batuta deste ou daquele partido, diga-se em abono da verdade.
Senão, vejamos: na maior parte das repartições, um simples papel que lá dê entrada é objecto, pelo menos, de três vistos – dos adjuntos do chefe, do próprio chefe, que confirma aqueles e, por fim, um outro elemento carimba o documento, antes de o levar a um sector diferente onde alguém, com poderes para tal, certifica que tudo está em ordem.
Outro exemplo: tratando-se de abrir uma simples vala respeitante a qualquer serviço do Estado (já nem digo camarário…) são aí uns quatro ou cinco a cavar, parando de vez em quando, ou não tivessem eles também direito a isso, mais dois ou três a vigiar os que trabalham. Estes, não pegam em ferramenta alguma nem dizem como se faz (nem é essa a sua função visto que, muito provavelmente, seguem aquela conhecida máxima segundo a qual “quem sabe executa e quem não sabe manda”, não sendo descabido falar aqui, igualmente, no célebre Princípio de Peter que, por sua vez, nos ensina que, numa hierarquia, cada pessoa tende a subir até atingir o seu nível de incompetência.
Efectuadas estas simples divagações, aligeirando assim o tom algo pesado que utilizei no início deste meu texto, e não obstante aquilo que deixei dito nesse intróito, cabe-nos a todos entoar o nosso mea culpa, face a esta tão portuguesa e tão atávica maneira de ser, o que levou Eça de Queiroz a dizer ao seu amigo Ramalho Ortigão após ter lido um volume de “As Farpas”: “Eu, quase alheio, hoje, ao país e seus acontecimentos (Eça estava no estrangeiro) senti, ao findar o volume, um ódio atroz pela chata e vil porção de terra que uma grande imprudência de civilização permite que seja um país quando não devia passar de uma pastagem…”.
Claro que esta e outras “boutades” dão que pensar, embora ditadas pela sua ironia mas, sobretudo, pelo nosso atraso relativamente a outros povos já então muito mais desenvolvidos quer sob o ponto de vista político, quer económico e cultural. Mas repare agora o leitor neste paralelismo: há uns tempos atrás, não há muito, ainda, o correspondente em Berlim de uma das nossas estações de TV, dizia que, para os alemães, Portugal não passava de “uma praia onde se descansa muito, se produz pouco e se esbanja ou gasta demasiado”!
O que (acrescento eu) de modo algum lhes dá o direito de nos considerarem e tratarem conforme o têm feito, atento o seu condenável passado recente, visto que, durante o mesmo século, tentaram dominar a Europa inteira pela força das armas, por duas vezes, pretendendo fazê-lo agora através de medidas económicas sufocantes, indiferentes ao sofrimento e às tragédias que ocorrem nos povos mais afectados, entre os quais se encontra o nosso.




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