Fotografia:
Religião, secularismo e a Europa

1Com o título “O Papa Emérito”, salientámos no último artigo algumas das dimensões do pontificado de Bento XVI, uma figura que é reconhecida pela sua incomum inteligência e extraordinária cultura, fazendo jus à exigente formação universitária alemã. O Papa renunciou “em consciência e plena liberdade”, conforme declarou – sendo esta uma das suas últimas lições; certamente, como disse, as forças do corpo e do espírito já lhe faltavam; mas não será alheio o ambiente da Cúria Romana e do banco do Vaticano, cheio de intrigas e escândalos, que ele não conseguiu reformar.

Acílio Rocha
14 Mar 2013

É conhecido o testemunho (há muitos anos) de um prestigiado sacerdote de Lisboa sobre a sua experiência no Vaticano: “a maior prova de fé que um católico pode dar, é passar três anos no Vaticano e não a perder”, onde, acrescenta, “se rezava pouco e intrigava-se muito”. Ora, o próprio Bento XVI dizia que vivia o pontificado de “um pastor rodeado de lobos”.

2. É célebre o debate público entre Joseph Ratzinger e Jürgen Habermas (este, um renomado filósofo agnóstico da conhecida Escola de Francoforte) – a que aludimos no artigo anterior. O filósofo partia da sua teoria da “acção comunicativa”, segundo a qual as ideais de verdade, de liberdade e de justiça estão inscritas na nossa linguagem; quer dizer, toda a comunicação é mediada por “actos de fala” entre dois ou mais sujeitos, que, pelo debate e argumentação sinceros, poderão assim convir na prática de tais ideais, donde surge também a ética. Ora, Ratzinger faz notar que o “processo de argumentação em busca da verdade” de Habermas não pode nascer apenas do simples debate, na medida em que os participantes resvalarão para interesses particulares e grupais; a divergência de Ratzinger não é total, mas discorda que o fundamento da ética seja interno à acção comunicativa (como sustém Habermas). Nesse debate, Ratzinger apontou ainda o perigo do multiculturalismo (que Habermas não nega), segundo o qual cada cultura se enclausura em si e julga-se possuidora da verdade, “abandonando a busca esperançada da Verdade”. Assim apela a que em vez de “multiculturalismo” se favoreça o interculturalismo, onde a busca comum da verdade se faz pelas diferentes culturas: então, enquanto o multiculturalismo separa, o interculturalismo reúne.

3. Sobre a Europa, o futuro Papa criticou os efeitos da separação da liberdade da verdade, sobretudo a respeito de questões morais; ora, a abolição da noção de que os “absolutos morais” estão inscritos na razão natural do homem abre espaço para o utilitarismo surgir como sistema ético dominante; separar a verdade da liberdade resulta na adopção da praxis como o único critério de bem e mal.
Ratzinger insistia como “o cristianismo permitiu à Europa compreender o que é a liberdade, a responsabilidade e a ética”. A uma União Europeia que se afasta cada vez mais da intenção dos seus “pais fundadores”, o futuro Bento XVI julga “que as coisas deveriam ir ao invés da evolução actual”; é que “o egoísmo de certos Estados membros da União e a miopia dos que regem as instituições comunitárias são um testemunho vivo da maneira como se pode destruir uma obra grandiosa como aquela que foi criada após a II Guerra Mundial”. Neste sentido, “se a racionalidade é um sinal essencial da cultura europeia, pode tornar-se devastadora se se separa de suas raízes e se é erigido como critério único o que é tecnicamente possível”.
Em 1993, escrevia: “É evidente que Europa não é um conceito geográfico mas uma grandeza histórica e moral. Nas revoluções dos últimos anos desvelou-se com extrema clareza que o agir político, social e económico, não se leva a cabo só com tecnocracia, mas que implica um problema moral e religioso”. Já Bento XVI, na audiência aos participantes do Congresso do 50.º aniversário do Tratado de Roma, afirmou: “De facto trata-se de uma identidade histórica, cultural e moral, mais que geográfica, económica ou política; identidade constituída por um conjunto de valores universais que o Cristianismo contribuiu em forjar (…). Estes valores que constituem a “alma do Continente” devem permanecer na Europa do Terceiro Milénio como “fermento” de civilização”.
Uma das motivações da unificação europeia foi abrir um caminho de paz pela busca de uma identidade comum, “que não deveria dissolver ou negar as identidades nacionais mas uni-las num nível de unidade mais elevado, numa única comunidade de povos”. Nesse processo, “não há dúvida nenhuma que os “pais fundadores” da unificação europeia consideravam a herança cristã como o núcleo dessa identidade histórica”. Por isso escreve: “Só agiremos de modo verdadeiramente ético e não por calculismo, se virmos no homem um absoluto, que está acima de todos os bens. Intangibilidade da dignidade humana: esta dignidade vale para todos os seres humanos, vale para quem tiver um rosto humano”. Verdadeiramente, se assim não for, já não estamos ante uma “Europa europeia”.




Notícias relacionadas


Scroll Up