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Fidalgos e guerreiros

Na passada terça-feira tiveram lugar dois jogos exemplares, respeitantes aos oitavos de final da Champions League. E quando digo “exemplares” não me refiro só à qualidade do futebol exibido. Refiro-me ao facto de termos tido uma oportunidade única de observar quatro equipas que mostraram à evidência outros tantos modelos daquilo que se observa neste imenso mundo que é o futebol de alta competição. O Barcelona é a máquina industrial, de futebol estereotipado, como trabalham as grandes indústrias capitalistas modernas.

Manuel Cardoso
14 Mar 2013

Ali não há artesanato; há produção em série, com o mais perfeito modelo de divisão do trabalho, com uma estandardização do produto final. Dizem que é um futebol científico; é mais que isso; é um futebol feito de uma receita que se repete, um modelo de jogo que tem tanto de perfeição como de monotonia. O mais importante é que resulta em vitórias e por isso este modelo se vai perpetuando, enquanto não aparecer um génio que invente uma receita eficaz para o contrariar. Obviamente, esse génio ainda não apareceu, com exceção, logicamente, de Jorge Jesus.
Pela frente do colosso catalão esteve um inacreditável AC Milan. Se os barcelonistas são os burgueses trabalhadores e aplicados na máquina de fazer vitórias em série, os italianos foram os fidalgos, a nobreza, a casta aristocrática que pretendeu viver dos rendimentos. Uma equipa de estrelas (ou melhor, de pseudo-estrelas) que sonharam com a possibilidade de vencer o Barcelona com uma atitude arrogante de quem é afilhado de Berlusconi. Enganaram-se e levaram um “banho de bola”. É que à frente das pseudo-estrelas esteve uma equipa de estrelas propriamente ditas, mas estrelas que trabalham, que encaram todos os jogos da mesma forma: na monotonia do trabalho.
No outro jogo tivemos um surpreendente Schalke 04-
-Galatasaray.
Os alemães mostraram neste jogo duas faces: uma primeira parte de atitude aristocrática, um pouco ao jeito do Milan em Barcelona. Convencidos, erradamente, da sua superioridade (como muitas vezes acontece aos alemães) viram os turcos adiantar-se no marcador e terminou a primeira parte “à portuguesa”: debaixo de um coro de assobios dos seus próprios adeptos. Na segunda parte quase poderíamos dizer que o Schalke jogou “à Barcelona”. Os alemães acordaram para a realidade, fizeram uma excelente segunda parte mas já era tarde.
Era tarde porque do outro lado estava uma equipa de guerreiros. Uma equipa que me fez lembrar o SC de Braga de há um, dois ou três anos; o seu treinador era a imagem do guerreiro que até conseguiu convencer Drogba a correr durante todo o jogo. Os jogadores, claramente motivados, puseram em campo toda a humildade que os levou ao maior sucesso da sua vida desportiva.
Em suma, em quatro equipas, tivemos quatro posturas bem distintas e não será difícil adivinhar que foi o Galatasaray quem mais me entusiasmou. Porque ganhar jogos quando se tem génios como Messi e Iniesta não é difícil, principalmente quando se tem pela frente aristocratas como El-Sharawi. Mérito, isso sim, é ganhar com sofrimento, suor e até sangue como fizeram os turcos. Porque o futebol não é só génio; é trabalho acima de tudo.




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