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Rousseau, uma luz enublada

Relativamente à fenomenologia da realidade humana, parece haver uma certa discrepância entre Rousseau (1712) e os Iluministas. Para os iluministas a realidade humana é constituída por necessidades, afetos, paixões, instintos e razão. Viam, sobretudo na razão, isto é, na verdadeira natureza do homem, a implantadora de normas, segundo a qual a multiplicidade da vida lhe devia obedecer. Já Rousseau, pelo contrário, via no instinto natural o implantador das normas, ao qual a própria razão e a multiplicidade da vida, se devem ajustar.

Benjamim Araújo
13 Mar 2013

Afinal, as normas para se alcançar a ordem, o equilíbrio, a organização, exigidas pela multiplicidade da vida, para chegar ao seu destino (o retorno à natureza), a que voz de comando deve obedecer? Devem obedecer à razão, ao instinto natural ou à sintonia entre os dois?
Os fenomenólogos definem, entre muitas, a razão, como uma potencialidade investigadora do conhecimento. O instinto, para eles, é um comportamento espontâneo, inato e invariável, comum a todos os indivíduos da mesma espécie.
O instinto natural e a razão, vistos dentro deste contexto fenomenológico, parecem dar, entre si, umas certas cotoveladas. Se considerarmos, porém, o instinto e a razão, no contexto transcendental, então a flexibilidade da razão, espelhada nos pensamentos, vai anular a discrepância entre eles. Da mesma e verdadeira natureza, o instinto e a razão são suas manifestações, respetivamente, da sabedoria e da energia vital. Em virtude da unicidade da verdadeira natureza, está anulada a discrepância.
Então, no campo fenomenológico, o instinto natural e a razão conectam-se e cooperam, na ânsia da unidade, organização, ordem e equilíbrio, na multiplicidade da vida, em função do seu retorno à natureza primitiva e à nobreza e santidade do estado atual do homem.
A especulação que domina, creio eu, todo o pensamento de Rousseau, é a do contraste entre o estado natural e o estado atual do homem.
Diz Rousseau: “Tudo está bem, quando sai das mãos do Autor das coisas; tudo degenera entre as mãos do homem”. Eis, aqui, nesta afirmação, uma potente luz que clama por um vento forte e seco, a soprar do quadrante da consciência transcendental, capaz de a desenublar.
Com o estado natural do homem, Rousseau refere-se à natureza humana primitiva. Tudo nesta natureza está bem; tudo nela é bom. Eu diria que tudo nela é excelente, porque a natureza humana primitiva, saída das mãos do Autor das coisas (Deus), é a manifestação da imagem e semelhança de Deus.
A imagem do Autor das coisas reverbera-se na energia espiritual, espelhada nas atividades da razão. Não se fale apenas de espiritualidade, porque a espiritualidade da natureza humana primitiva está limitada pela materialidade e esta está limitada pela espiritualidade. Fale-se, antes, da espiritualidade materializada da natureza humana primitiva (o ser autêntico).
Para afastar da natureza primitiva a ilusão de a podermos considerar com o resultado de uma associação ou composição, vou gravar-lhe o sinete da unicidade, que dela brota espontaneamente. Tudo nela é uno.
A semelhança da natureza humana primitiva com o Autor das coisas (Deus), está no facto da nossa natureza primitiva ser um alfobre natural de bondade, amor, autonomia, liberdade, sabedoria, vida?, plantadas, aí, pelas mãos do Autor das coisas.
“Tudo degenera entre as mãos do homem”, diz Rousseau. Tudo degenera quando o homem, no seu estado atual, ignora a sabedoria do instinto natural; perverte o sentido verdadeiro da energia biopsíquica da razão; subjuga a autonomia e a liberdade, provenientes da natureza primitiva. É um facto que todo o estado atual do homem se degrada. Neste caso, como diz Hobbes, “O homem é o lobo do homem”. Eu continuaria dizendo que o homem é o lobo de si mesmo.
Segundo Rousseau, o homem no seu estado atual tem de retornar ao seu estado primitivo. Este retorno é o motor explosivo de todo o progresso do homem.
Obrigado, Rousseau, pela luz que nos enviaste.




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