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O Papa Emérito

É inevitável, no contexto actual, não falar do legado de Bento XVI, cuja resignação surpreendeu a todos, crentes e não crentes; por isso, muitos e variados têm sido os testemunhos sobre a acção do agora Papa Emérito, o que mostra que o seu pontificado foi profícuo com incidências em múltiplos assuntos da vida eclesial ou do âmbito político da humanidade. Do meu ponto de vista, foram as seguintes as vertentes mais incisivas e notórias da acção do Papa cessante.

Acílio Rocha
13 Mar 2013

Desde logo, agiu sem hesitações no combate aos problemas da pedofilia, actuando com celeridade e energia em todos os casos que surgiram no seio da Igreja, com uma frontalidade inquebrantável, não fosse essa uma das chagas que mais o terão chocado e feito sofrer. Sendo uma figura de elevada craveira intelectual, mais propenso para o estudo e a especulação, a celeridade com que atalhava, sem tibiezas, tal flagelo, não se limitando a condenações meramente formais, mostra uma coragem conjugada com princípios claros na condução eclesial.
No plano social, foi um Papa que escalpelizou sem complacências os desvarios do neoliberalismo preponderante, que só mira o lucro pelo lucro e provoca todo um imenso cortejo de pobreza, arruinando a classe média, ampliando tragicamente a chaga do desemprego. Ainda no primeiro dia do ano em curso, assim se expressava: “Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado”. Mas atente-se na seguinte passagem da sua extraordinária encíclica Caritas in veritate (19/06/2009), que deve ser lida e relida, tão cheia de ensinamentos do princípio ao fim: com “(…) a incerteza sobre as condições de trabalho resultante dos processos de mobilidade e desregulamentação, geram-se formas de instabilidade psicológica, com dificuldade em construir percursos coerentes na própria vida, incluindo o percurso rumo ao matrimónio. Consequência disto é o aparecimento de situações de degradação humana, além de desperdício de força social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial do passado, hoje o desemprego provoca aspectos novos de irrelevância económica do indivíduo, e a crise actual pode apenas piorar tal situação” (nº 25).
“A caridade na verdade” – tal é o título da encíclica – reactualiza a doutrina social da Igreja, passando por todos as grandes questões que afectam o homem de hoje, da justiça ao desenvolvimento – humano, social e económico –, do papel do Estado à sociedade civil, numa dinâmica que se inicia com estas palavras: “a verdade abre e une as inteligências no logos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade” (nº 4). Um homem de pensamento, mas muito atendo à realidade.
Como intelectual que é, a sua obra é já incontornável e exercerá influxo duradoiro; neste aspecto, veio a notabilizar-se pela sua profundidade especulativa com que versa quer questões filosóficas e teológicas, fruto de toda uma vida dedicada ao estudo e reflexão sobre os grandes problemas que hoje nos preocupam. Neste aspecto, Bento XVI singulariza-se no modo como fez do diálogo entre a fé e a razão uma das questões centrais da sua mensagem; é verdade que estas questões constituem um dos problemas mais antigos do cristianismo. Para o Papa cessante, a fé e a razão são duas vias para atingir a verdade; fazer abstracção de uma ou de outra é amputar o ser humano de uma das suas faculdades fundamentais. Os domínios da fé e da razão podem parecer muito distintos, mas não o são completamente: as verdades sobrenaturais implicam consequências naturais, enquanto a busca das leis naturais pode conduzir, remontando dos efeitos às causas, ao próprio Deus.
O teólogo sabe que a fé abandonada pela razão conduz facilmente ao fundamentalismo. Mas a fé e razão têm um e mesmo objecto – a verdade –, cuja finalidade é o conhecimento do Bem, seja natural seja sobrenatural. Ora, buscar o verdadeiro, o bem, é perceber Cristo como luz que ilumina a história e ajuda e encontrar o caminho para o futuro. Neste ponto, pode dizer-se que fez o Papa Emérito fez da racionalidade o terreno comum de diálogo com os não crentes.
É célebre o debate público que, ainda cardeal, travou com Jürgen Habermas, o filósofo representante da célebre Escola de Francoforte, que se definiu como “ateu metódico”, que teve lugar em Munique (19 de Janeiro de 2004). O diálogo foi memorável porque pôs frente a frente duas grandes tradições na tradição ocidental desde os inícios da Idade Moderna – a racionalista secularizada e a tradição cristã –, mas ambos propuseram, de maneira diferente, uma aliança entre a fé e a razão. Mas sobre este debate, e o seu pensamento sobre a Europa, tratará o próximo artigo.




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