Fotografia:
Possível, mas muito difícil

É verdade. Apesar da crise e da austeridade, há ainda quem defenda o Governo, mas o número de apoiantes está a diminuir muito. Há razões. Ao contrário do que era expectável, desde logo, pelo discurso angariador de seguidores e apoiantes, o país está a empobrecer sem que se vislumbre a tal prosperidade prometida até há ano e meio e em que acreditávamos. Pelo que vamos percebendo e sentindo, estamos a ir em direcção diversa. Teme-se que o país soçobre perante a dívida, os encargos, os reembolsos e o desalento geral de que a última grande manifestação nacional foi elucidativa. Pessoalmente, estou pessimista.

Luís Martins
12 Mar 2013

Estive a pesquisar sobre a dívida pública, recorrendo a fontes oficiais e a conclusão a que cheguei foi preocupante. Antes, porém, agarrei as contas do secretário de Estado, Luís Morais Sarmento, divulgadas no início da semana passada. Fiquei a saber que a dívida pública só será sustentável quando a filha da minha irmã Sandra, que veio a este mundo há pouco mais de um mês, atingir 30 anos de idade. No entanto, nessa altura, pelas contas do secretário de Estado, deveremos 60% do PIB.
Mas há condições. Por exemplo, que os actuais contribuintes activos e os que conseguirem entrar no mercado de trabalho, o que está difícil de acontecer, contribuam para que o PIB cresça, em média, 3,3% ao ano. Refira-se, a propósito, que na última década o crescimento do PIB quase não cresceu, rondando os 0%. Pôr a economia a crescer durante as próximas três décadas, ano após ano, a um ritmo superior a 3%, será obra hercúlea, isso se for concretizável. Se for o caso, o signatário terá nessa altura, se Deus lhe der vida bastante, 86 anos e fará questão de levar essa boa notícia a S. Pedro. Mesmo assim, continuará a ser preciso, para que a dívida seja sustentável, que a Maria, juntamente com todos os meninos e meninas com a idade da minha novel sobrinha tenham emprego e contribuam ainda com os tios mais novos para que o PIB cresça a bom ritmo. Mais de 3% ao ano, em termos médios! Receio, no entanto, que o objectivo não seja cumprido.
O meu pessimismo tem a ver com o montante da dívida e a sua evolução mais recente e com a actual situação da economia. O Estado devia aos credores, em 31 de Janeiro último, de acordo com o Boletim Mensal da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, qualquer coisa como 199.411 milhões de euros. Em Junho de 2011, a dívida pública era de 172.393 milhões de euros, depois de ter crescido 78.159 milhões nos últimos dois governos socialistas. Desde que tomou posse, o actual Governo já adicionou ao
stock da dívida cerca de 27.018 milhões de euros, a que corresponde um crescimento de 15,5% desde Julho de 2011, à razão de 1.422 milhões de euros por mês (durante a governação de Sócrates a dívida cresceu 82,9% em relação ao período precedente, à razão de 1.071 milhões de euros por mês).
Relativamente à solução para a economia, não acompanho hoje o raciocínio do Governo de que o ajustamento em baixa nos levará ao céu ou perto disso. Acredito, isso sim, que nem sequer o veremos à distância. Se o país continuar assim, a não ser que se aplique um corte à dívida, o Governo poderá não fazer mais do que produzir ordens de transferência das poupanças dos portugueses para o exterior, quem sabe para pagar uma renda vitalícia para continuarmos a viver num país que já não será nosso. Como povo poderemos deixar de ser senhorios do território conquistado com sangue e suor já lá vão oito séculos. Se for o caso, deixaremos de ser sujeito para passarmos a objecto.
A receita que está a ser administrada está a prejudicar a economia, sendo que só esta nos poderá levar à prosperidade prometida. Como o problema que a economia portuguesa está a enfrentar é de procura, tendo em conta que a carga fiscal retirou rendimento disponível às famílias – que foi em valor significativo, diminuindo muito o seu poder aquisitivo – será difícil inverter a trajectória negativa da criação de riqueza e mais ainda da dívida.




Notícias relacionadas


Scroll Up