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Grandolamente… embalados ou espicaçados!

E de repente uma certa parte do país começou a cantar – nalguns casos desafinadamente – a canção: Grândola, vila morena. Muitos se recordarão que este foi o tema que confirmou a boa execução da revolta na madrugada de 25 de Abril de 1974. Apropriada por uns tantos – auto-denominados de democratas, embora nem sempre respeitando quem pensasse de forma diferente – foi tema nos primeiros anos da revolução, criando um ambiente de contestação, de idealismo e até de utopia… imediatistas.

A. Sílvio Couto
11 Mar 2013

Será que os tempos que estamos a viver – outra vez sob a mensagem da dita canção – querem recuperar o espírito daqueles anos? Das três vertentes aqui apontadas, qual delas está mais viva: será sobretudo a contestação? Ou será que se torna presente um novo idealismo? Ou, pelo contrário, estão a ser lançadas (novas ou antigas) sementes de utopia?
No passado havia uma tentativa de acreditar na democracia e talvez na (pretensa) ‘terra da fraternidade’. Agora parece que o espírito dos cantores/contestatários respiram, antes, uma espécie de contestação da (própria) democracia… pelo menos sobre quem não seja como eles. Tal como naqueles efervescentes anos de setenta e de oitenta do século passado, há quem pareça só reconhecer a voz da rua e não aceite a voz das urnas, isto é, dos votos. Também paira no ar uma certa presunção de acusação a tudo e a todos, particularmente se não pensam como uma certa clique (dita) intelectual… germinada nas franjas das metrópoles de Lisboa e Porto, embora tenham, hoje, muitos mais direitos – alguns adquiridos sabe lá à custa de quê e/ou de quem! – do que os mais desfavorecidos de outras regiões do país, sobretudo no interior, que as medidas políticas conseguiram desertificar, nos últimos trinta anos.

Se compararmos os intervenientes das duas épocas – distantes mais de três décadas – do cançonetismo de ‘Grândola’ e afins, poderemos encontrar muitas diferenças:
– no passado era gente que ansiava ter… ao menos o suficiente; agora são pessoas que têm a nostalgia do já tido… perdido com dó e sem glória.
– no passado os rostos eram de gente quase esfomeada e em busca do pão… pelo menos o essencial; agora vemos pessoas endividadas por provocadores de sonhos, mas que não os advertiram sobre as consequências da possibilidade de poderem perder o emprego… repentinamente.
– no passado encontravamos gente que estava a recuperar dos traumas da guerra colonial… onde muitos filhos tinham caído ingloriamente; agora somos confrontados com pessoas que nunca tiveram de viver a ansiedade da guerra… numa Europa que até não pagou para não produzirmos nos sectores primários da nossa economia.

• Grandolamente falando, vivemos num tempo complexo, quer pelas circunstâncias económicas, quer pelas razões mais básicas do bem-estar que não conseguimos manter.
• Grandolamente falando, temos de saber distinguir quem nos manipula e quem nos fala verdade… se bem que não dizer nada ou falar meia verdade já será enganar.
• Grandolamente falando, precisamos de saber quais serão as consequências de embarcarmos nesta onda de malcriadez, pois o rastilho está prestes a incendiar-se.
• Grandolamente falando, vale mais permitir a indignação – cívica, musical e um tanto civilizada – do que as pedras, os cocktails e as pilhagens, que já vimos noutras paragens… mesmo europeias.
• Grandolamente falando, será que ainda há esperança para Portugal, para os portugueses e nesta história?

Nota de rodapé…
Depois do movimento de contestação de 2M ficaram-nos algumas questões:
– Para quem tanto contesta o governo, onde estavam os dirigentes da oposição socialista?
– Por que deixam aos extremistas (ideológicos e sindicalistas) uma certa configuração oportunista?
– Serão os números apresentados fiáveis ou há quem faça o trabalho de sapa, desacreditando as contestações?
– Até onde irá onda (ou ondas, marés ou enchentes) de pensar mais com a barriga do que com a cabeça e a vontade?
– Por que temos de aturar as incessantes reivindicações e não assumimos, de vez, as responsabilidades mínimas, sem aligeirarmos as culpas?

Parafraseando JF Kennedy: ‘não perguntem o que o Estado pode fazer por vós, mas antes o que podeis e deveis fazer pelo Estado’! Temos, portanto, de nos unir para recuperar o País, reinventar a Nação e de catalizar a força do Estado… antes que seja tarde!




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