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Mais um exemplo

Todos nós, adeptos portugueses, tivemos na terça-feira passada uma oportunidade única para ver o que podia ser um bom jogo de futebol em Portugal. Foi um verdadeiro banho de desportivismo e de civilidade. Depois de ver o que vi, mais me convenço que nós somos um povo estranho; absurdo; masoquista e até com alguns com traços de má índole. José Mourinho, que nunca treinou o Manchester foi aplaudido e alvo de cânticos. Cristiano foi aplaudido pelos adversários eliminados pela sua equipa. Aqui adoramos assobiar e insultar os jogadores que trocaram de emblema. Lima é assobiado em Braga depois de ter marcado belos e decisivos golos pela nossa equipa. Moutinho foi um dos maiores jogadores que o Sporting teve e é assobiado sempre que vai a Alvalade.

Manuel Cardoso
7 Mar 2013

Liedson foi despedido de Alvalade com lágrimas e aplausos em pé. Depois foi recebido com apupos e ódio. Custódio, um filho da terra, é odiado em Guimarães. Quim é alvo do ódio dos benfiquistas quando há meses era um herói. E podíamos continuar até ao fim da página a dar exemplos como estes.
Aqui invadimos as bancadas adversárias para desancar neles uma carga de porrada. Lá aplaudem os adversários e os estrangeiros. Aqui só não os matamos porque não podemos. Aqui os clubes apoiam claques que depois dão exemplos de arruaça e banditismo. Lá, os clubes proibiram as claques organizadas. Aqui, os dirigentes calam-se quando os seus fazem asneiras e cospem fogo quando são prejudicados. Lá dá gosto ir ao futebol; aqui começo a preferir ver desenhos animados na televisão.
Eu nem sou fã dos ingleses; ao longo da história ajudaram-nos quando mais lhes foi conveniente e a aliança luso-britânica foi sempre um argumento para manter a nossa subserviência. Mas fomos sempre nós quem deu os tiros no pé; e continuamos a dar. Preferimos atirar pedras uns aos outros em vez de valorizar o que é nosso. Cristiano Ronaldo talvez tenha mais adeptos em Inglaterra do que em Portugal. Porquê? Porque jogou num determinado clube que outros portugueses detestam. Por isso mais vale apoiar Messi porque nunca jogou no Sporting.
É óbvio que esta maneira de encarar o futebol não é específica de Portugal; em Espanha, por exemplo, estes ódios são ainda mais exacerbados; mas não são os maus exemplos que nos devem guiar; os maus exemplos devem servir apenas para nos desviarmos deles; e não é isso que eu vejo. E já temos, ao longo de 900 anos, múltiplas lições que nos deviam ter feito pensar. No tempo dos descobrimentos aproveitamos as fortunas dos judeus para enriquecer. Depois decidimos usar a Inquisição para os perseguir; muitos fugiram para a Holanda, ajudando os holandeses a tornarem–se uma potência mundial, enquanto nós nos afundávamos. Hoje escorraçamos os nossos jovens para a emigração e deixamos este país para os velhos. No futebol como na vida, continuamos a odiar-nos uns aos outros e depois ficamos a lamentar as desgraças que nós próprios cavamos.
É por estas e por outras que cada vez gosto mais de desenhos animados…




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