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Sos – emigrar

Flagelado na década de sessenta por uma grave crise económico-financeira e social e pelo início da guerra colonial, o país assiste a uma avassaladora onda de emigração. A salto e a monte, durante a noite ou escondidos em camiões de gado, enganados e explorados por passadores sem escrúpulos, muitos desses portugueses acabam por regressar ao destino de origem, sem alcançarem o seu objetivo ou acabam vitimados por guardas fronteiriços, salteadores ou por doenças.

Dinis Salgado
6 Mar 2013

Mas, aqueles que, após tamanhas privações e perigos, alcançam o eldorado sofrem, por longo tempo ainda, as contrariedades de uma língua e cultura estranhas e as limitações e carências de um quotidiano em bairros de lata, desenraizados e marginalizados. Todavia, com as elevadas receitas monetárias que enviam para o seu país de origem, ajudam à resolução da crise económica nacional.
E o poeta Manuel Freire cantou o fenómeno assim:

Ei-los que partem novos e velhos
Buscar a sorte noutras paragens   
Noutras aragens, entre outros povos,
Ei-los que partem velhos e novos.

Ei-los que partem, olhos molhados,
Coração triste, e saca às costas
Esperança em riste, sonhos dourados,
Ei-los que partem, olhos molhados.

Virão um dia, ricos ou não
Contando histórias de lá de longe
Onde o suor se fez em pão
Virão um dia ricos ou não.

Passadas quatro décadas, o país, de novo mergulhado numa grave crise económico–financeira e social, assiste a igual onda avassaladora de emigração. Agora mais jovem e culturalmente mais desenvolvida e para, além da Europa, destinos bem diferentes: África, Oriente, Ásia e América do Sul. Todavia, esta é, na generalidade, uma emigração de luxo que afasta do país profissionais qualificados e sangue jovem que uma mais-valia seriam para o seu crescimento e desenvolvimento.
E com a agravante de que, contrariamente à emigração de sessenta que via o regresso ao torrão natal corno objetivo prioritário, estes emigrantes de hoje dificilmente regressam e, muito menos, assim, colaboram na recuperação económica do pais que os abandona e expulsa.
Ademais, o país consumiu sinergias e muito dinheiro na formação pessoal, profissional e social desta juventude de que, agora, outros países, sem qualquer contrapartida, vão usufruir. Por exemplo, por quanto não ficou a formação académica de um médico, um engenheiro ou um enfermeiro que, sem emprego nem perspetivas de futuro, troca o seu país por outro que com ele nada gastou e o recebe pronto a produzir?
Ora, esta trágica situação deixa o país mais carenciado e pobre e abre feridas sociais que o futuro mais próximo não pode sanar. E, sobretudo, nos leva a concluir quão desditosa e madrasta é a Pátria que, por culpa de certos homens e governações, a tais filhos assim nega o pão e o lar.
Então, até de hoje a oito.




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