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Bento XVI e o diálogo inter-religioso

Dos 16 documentos aprovados no Concílio Vaticano II, importa salientar a constituição “Gaudium et Spes” sobre a Igreja no mundo, a “Nostra aetate” sobre as relações com as religiões não cristãs, a “Dignitatis humanae” sobre a liberdade religiosa e o decreto “Orientalium Ecclesiarum” sobre as Igrejas Orientais católicas. Dos referidos documentos o respeitante ao diálogo inter-religioso, foi um tema querido de João Paulo II e continuado por Bento XVI.

Narciso Machado
5 Mar 2013

João Paulo II iniciou gestos de grande alcance no campo inter-religioso, convocando para Assis (Itália), por duas vezes, todas as religiões para um encontro de oração pela paz no mundo. Foi ele o primeiro Papa a visitar uma sinagoga e uma mesquita.
Bento XVI veio reforçar o diálogo inter-religioso com o mundo istâmico e judaico. Numa visita à Turquia, em finais de 2006, encontrou-se com os líderes muçulmanos, visitando também uma mesquita, em Istambul. Em Janeiro de 2011, declarou esse ano como ano mundial do diálogo intercultural e inter-religioso, cujo ponto alto ocorreu em Setembro desse mesmo ano, com uma reunião dos representantes das várias confissões religiosas. Na viagem que efetuou ao Líbano, no mês de setembro de 2012, Bento XVI, além de pedir o “silêncio das armas” e o fim da violência no Médio Oriente, apelou ao respeito recíproco e diálogo contínuo, porque o Médio Oriente, segundo Bento XVI, “tem de perceber que os muçulmanos e os cristãos, o islão e o cristianismo podem viver juntos, sem ódio e no respeito pelas crenças de cada um”, apontando o Líbano como exemplo.
A propósito dos 50 anos do Concílio Vaticano II, Bento XVI convocou o sínodo dos Bispos, com apelo ao diálogo com não crentes, ao mesmo tempo que declarou o ano 2013 como o Ano da Fé, tendo como temas: debates entre os baptizados, crentes de outras confissões e religiões, ateus e indiferentes. Por ocasião da sua visita a Portugal, em maio de 2010, tive a oportunidade de lhe oferecer dois livros meus: um sobre o “Diálogo entre Judaísmo, Cristianismo e Islamismo” e outro sobre “900 Anos do Nascimento de D. Afonso Henriques” – Guimarães Local do seu Nascimento”. Bento XVI teve a amabilidade de agradecer a oferta, congratulando-se com a “oportunidade e honesto rigor dos temas analisados”.
Há que salientar, como maior pensador acerca do diálogo entre as três religiões monoteístas, o teólogo católico suíço, Hans Kung, que foi professor de Teologia Ecuménica e do Instituto para a investigação ecuménica da Universidade de Tubingen (Alemanha), até se reformar em 1996, sendo atualmente presidente da Global Ethic Foundation.
Escreveu três grandes tomos dedicados, respetivamente, ao judaísmo, cristianismo e islão que bem podem ser designados como “a bíblia do diálogo das três reli-
giões monoteistas”. Segundo Hans Kung “não há paz entre as nações sem paz entre as religiões”. Existe, porém, quem preconize uma luta entre culturas ou o choque entre o Ocidente e o Islão, como cenário mundial inevitável.
Neste momento, as opções parecem ser claras: ou se opta por uma rivalidade entre as religiões, choque de culturas e guerra das nações ou se opta pelo diálogo de culturas e paz entre as religiões, como pressuposto para a paz entre as nações. Importa, para isso, em vez de se erguer barreiras de ódio, de vingança e de inimizade, estabelecer pontes de diálogo, numa atitude de aproximação e de compreensão. E nesse diálogo, importa procurar convergências, respeitar diferenças e atenuar divergências, na linha do pensamento do Concílio Vaticano II, pois, não há paz mundial sem paz religiosa .
Na hora de fazer o balanço do papado de Bento XVI, existe uma certeza sólida: a de que a decisão de resignar, numa atitude e postura lúcida, humilde e racional, deriva da falta em condições físicas para servir a Igreja da melhor forma. A sua resignação, pela raridade e pela ideia estabelecida de que os Papas desempenham um cargo vitalício, constitui também um ato de grande coragem. A sua visão do papado mostra que a Igreja não pode ser uma monarquia absolutista e vitalícia. Embora não fazendo nenhuma reforma de fundo da Igreja, concentrou todo o seu esforço no papel de “guia espiritual”, tentando fazer a conciliação “entre a  fé e razão, política e justiça”. Por isso, pede uma “fé clara” e uma discussão sobre os valores para afrontar as consequências da secularização da sociedade ocidental, que ele associa ao relativismo cultural dominante – uma sociedade em risco de perder os “códigos éticos”. O futuro encarregar-se-á de demonstrar a oportunidade e profundidade do seu pensamento. E optando pelo caminho mais exigente e menos popular, Bento XVI merece, por isso mesmo, o nosso profundo respeito.




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