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Estamos a pagar as consequências

Estamos a pagar as consequências da falta de exigência de qualidade. A todos os níveis. Desde há alguns anos para cá, começou-se a instalar na sociedade algum espírito de facilitismo, confirmando aquilo que a experiência diz: quando se sente um patamar de maior bem-estar, tende-se, em geral, a relaxar um pouco a luta pela vida. 1. Passou-se no ensino, quando se confundiu democratização do ensino com generalização sem qualidade: para evitar desigualdades, por causa dos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos, tudo era nivelado por baixo ou, então, dava-se notas altas a toda a gente. Éramos os melhores do mundo.

M. Ribeiro Fernandes
3 Mar 2013

A ideologia da igualitarização ajudou a este facilitismo: tudo igual, para não haver diferenciação entre uns e outros. Ora, se a desigualdade fosse apenas por motivos sociais, então devia-se ajudar a superar, a montante, essas desigualdades; mas, as desigualdades não são todas por motivos sociais: muitas são inerentes à condição humana. O igualitarismo é uma utopia tão ingénua quanto tonta. Ainda, hoje, há quem continue a esgrimir contra moinhos de vento pela igualdade de género, em vez de investir na diferença e valorizar as competências. Tenta-se impor a igualdade, como se isso fosse possível.

2. Passa-se a nível político: a incompetência dos governos (e dos parlamentos) tem-se vindo a agravar, até chegarmos ao ponto em que estamos, com um país à deriva, um Governo sem credibilidade não só do povo, mas também de parte substancial do seu próprio partido, refém dos lóbis partidários que o elegeram e que escolheu como vítimas, sempre à mão, os funcionários públicos e reformados para pagar as facturas que vão aparecendo; e temos uma Oposição que não merece mais confiança do que o Governo porque deriva da mesma lógica partidária. A lógica dos partidos políticos funciona como base dessa degradação democrática. Tornaram-se em grupos instrumentalizados de votos e de compadrio. Os interesses estão em primeiro lugar e a exigência democrática passou para segundo plano. Claro que é o povo quem lhes proporciona essa deriva, ao votar como vota. O que se está a passar, agora, em Itália é bem significativo disso: um comediante foi dos mais votados, ficou em 3º lugar, como se a eleição fosse uma comédia que se vive todos os dias…

3. Quando Sócrates instituiu o programa NOVAS OPORTUNIDADES, consagrou legalmente esse espírito generalizado da falta de rigor que já existia latente na sociedade, embora nesse projecto também houvesse um ideal generoso de oferecer valorização da sua escolaridade àqueles que a não puderam obter, consagrando a equivalência do saber da experiência ao saber académico. Só que muitos se aproveitaram logo disso, de uma forma escandalosa. Veja-se o aberrante caso da pseudo-licenciatura de Relvas e de muitos outros, dos quais não se fala. Muitas escolas, todas elas ligadas aos partidos, ganharam fortunas com esse negócio desonesto.

4. Esta falta de ética e de rigor pela qualidade foi corrompendo o país, no ensino, na política, na saúde, nas empresas, no abandono da produção; no campo do jornalismo, que tem um papel determinante na formação da opinião pública, mas onde rareia a investigação, se escrevem banalidades e disparates com a maior ligeireza, artigos de opinião feitos de tesoura e cola passam com ar de cultura… Hoje, tudo se relativiza, tudo vale o mesmo, sem um reparo crítico construtivo, sem nada…
O Serviço Nacional de Saúde é outro exemplo desta lógica míope que nasce duma cultura que não incentiva o rigor e a qualidade e que vem condicionando ideologicamente as pessoas, que já deixaram de ver para além dos baixos muros do seu horizonte crítico. Critica-se a ADSE por facilitar a livre escolha de médicos ou de hospitais: pois era exactamente esse modelo que o SNS devia seguir, promovendo a livre escolha, para obrigar os prestadores de serviços de saúde a uma maior qualidade. Obviamente que os mais procurados seriam os que ganhavam melhor. Se assim fosse, muita coisa mudaria rapidamente no SNS.
Só mais uma nota final: a resignação de Bento XVI das funções de Papa, para além de outro significado institucional, surpreendeu de tal maneira os dirigentes políticos e outros que fazem do poder um privilégio pessoal, que a maioria nem sequer teve a coragem de comentar o alcance desse gesto. Foi a mais profunda lição de desprendimento do poder que Bento XVI podia ter deixado: todo o poder é apenas um serviço e, quem não tem condições para o realizar com eficácia, deve resignar.




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