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“Braga é a terceira cidade de Portugal?”

“Braga é a terceira cidade de Portugal?” As respostas a esta questão, colocada pela jornalista Maria Cláudia Monteiro, encontravam-se no Jornal de Notícias de terça-feira passada. Entre o que foi dito por gente que nasceu, vive ou trabalha em Braga, sobressaía uma afirmação que é a melhor das respostas: “Para mim, é a primeira cidade do país”. Ao dizer isto, a atleta Jéssica Augusto revela uma enorme sensatez. É impossível não compreender a verdade de quem diz: “Esta é a minha cidade, para mim é a primeira de Portugal”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
3 Mar 2013

Em contrapartida, os que dizem que Braga é o terceiro município português demonstram uma muito menos intensa paixão pela cidade. Como, quando se diz que Braga é a primeira ou a terceira cidade do país, são os sentimentos que falam, é preferível, como é óbvio, escolher o primeiro lugar.

Se não for a paixão a falar, os resultados pioram. Num inquérito divulgado no ano passado, a DECO classificou Braga em décimo segundo lugar numa lista sobre a qualidade de vida em vinte e uma cidades capitais de distrito e das regiões autónomas. Uns anos antes, numa lista das melhores cidades portuguesas para viver, o Expresso colocava Braga em oitavo lugar, tendo-se salientado pelo comércio, algo que o inquérito da DECO corroboraria.

A classificação das cidades depende dos indicadores usados para as avaliar. Se se apurar quais são as que têm mais população residente, Braga, com 181.494 pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) de 2011, está em sétimo lugar, a seguir a Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Porto, Cascais e Loures, tendo, em dez anos, ultrapassado Matosinhos e Amadora.
Longe vão os tempos em que a cidade rivalizava com Coimbra. Para responder a um texto publicado na Gazeta de Coimbra contra a circunstância de continuarem “os de Braga marretando no velho assunto de querer que essa cidade seja a terceira das cidades portuguesas”, Álvaro Pipa argumentava, numa separata do Diário do Minho, que o Censo de 1920 tinha contabilizado 21.970 habitantes em Braga e 20.841 em Coimbra.

Os números do Instituto Nacional de Estatística não oferecem grande ajuda a quem quiser “marretar” no tal “velho assunto”. Coimbra está arrumada do pódio, mas Braga, que tem resultados que a colocam em lugares cimeiros ou melhores do que a média nacional, perde, frequentemente, quando comparada com vários municípios da Grande Lisboa e do Grande Porto. Em 2011, por exemplo, nasceram mais crianças no Porto, Vila Nova de Gaia, Amadora, Cascais, Lisboa, Loures e Sintra.

Se o indicador escolhido for o poder de compra per capita, Braga, segundo o INE, tem quase trinta municípios à frente, incluindo, desta vez, Coimbra, além de outras capitais de distrito do continente (Porto, Aveiro, Lisboa, Setúbal, Portalegre, Évora, Beja, Faro) e de municípios das regiões autónomas (Ponta Delgada, Funchal e Porto Santo).
É enorme a quantidade de indicadores que hoje são tidos em conta quando se pretende avaliar a qualidade de vida de um município. Na lista, para referir apenas um escasso número de indicadores mais correntes, encontram-se os que permitem avaliar a segurança (crimes contra as pessoas ou a propriedade); a saúde (expectativa de vida, camas hospitalares e médicos por habitante); a educação (nível médio de escolaridade); as condições de trabalho (acidentes laborais; extensão do tempo de trabalho; diferença entre os salários mais elevados e os mais reduzidos); o transporte colectivo (assentos disponíveis por hora para a população; tempo de deslocação entre a casa e o local de trabalho); a cultura (livrarias, salas de cinema e teatro, bibliotecas, percentagem de livros aí disponíveis por habitante); a vida democrática (rapidez da tramitação processual administrativa; existência de órgãos democráticos plurais e paritários; facilidade de apresentação de candidaturas a cargos electivos); o pluralismo mediático (estações emissoras de rádio e de televisão; jornais impressos, e respectivas tiragens).

Se não forem manipuladas e se se tiver cautela com os seus efeitos perversos, há estatísticas que se podem apresentar como instrumentos úteis não só para avaliar como também para melhorar a qualidade de vida dos concelhos. O escrutínio das políticas municipais não dispensa, de resto, uma apreciação periódica dos resultados obtidos num conjunto diversificado e articulado de indicadores. Em municípios de muitos países, quando as políticas visam o bem comum, a participação dos cidadãos é respeitada e incentivada, por se perceber o quanto ela é susceptível de qualificar a vida pública. No entanto, para que o envolvimento cívico possa ser proveitoso, é necessário que haja, com regularidade, informação transparente e que haja espaços em que a participação não tenha apenas um efeito placebo. Obviamente, quando as cidades são conduzidas pelos interesses ilegítimos de escassos em detrimento dos legítimos de muitos, qualquer intervenção cívica só atrapalha.




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