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Bento XVI: Humilde gigante, servidor da Verdade

“Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis da caridade”(Caritas in Veritate, 1).A renúncia de Bento XVI ao ministério papal veio agitar os meios de comunicação social. Os mais distintos especialistas desmultiplicam-se em comentários sobre as recônditas intenções que teriam levado o Papa a tão inédita decisão. E as razões apontadas são, muito legitimamente, para todos os gostos e ao sabor das mais variadas ideologias.

Álvaro Balsas, SJ
1 Mar 2013

O Papa, por sua vez, aduz uma razão simples, mas de meridiana claridade: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. (…) Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma”.
Para alguns, não seria expectável que um Papa conservador se decidisse por semelhante opção. Quando os argumentos enfraquecem e a racionalidade se debilita, ou simplesmente se ausenta, torna-se fácil rotular um interlocutor de “conservador”, esperando que, por esta via, seja eliminado o seu direito a emitir opiniões sobre matérias sobre as quais, por princípio, todos poderiam pronunciar-se. Triste sintoma este revelado por uma sociedade que se reclama regida pelos sãos princípios da tolerância democrática e da razão científica. Não deixa, contudo, de ser insólito que o Papa, sendo um intelectual e académico de reconhecida craveira, visse impedida a sua visita à universidade romana La Sapienza, por alegada incompatibilidade do seu estatuto com a laicidade dessa instituição. Felizmente não se perdeu o seu discurso, onde o Papa relembra que faz parte da natureza da universidade “estar ligada exclusivamente à autoridade da verdade” e, por isso, na liberdade de quaisquer ideologias.
A grandeza de Bento XVI não necessita de ser comparada com a de outros Papas; vale por si mesma. Observou recentemente com grande acerto um arguto comentador que “as multidões iam a Roma para ver João Paulo II, mas agora vão para ouvir Bento XVI”. O Papa granjeou já, por mérito próprio, um lugar de grande envergadura na história da Igreja. As razões para tal são múltiplas e conhecidas. Interessa destacar aqui a centralidade que ele atribui ao papel da razão para o cristianismo, enquanto religião do Logos, e a sua insistente obsessão pela verdade, tão reiteradamente retomada nos seus discursos e escritos. Pode até dizer-se que Bento XVI ficará conhecido como o Papa da verdade. Não de uma verdade que ele julgue já possuir, mas daquela que é necessário buscar continuamente e que o levou a reconhecer, no discurso de La Sapienza, que a universidade e as suas faculdades têm também o dever de custodiar: “ser guardiãs da sensibilidade pela verdade, [e] não permitir que o homem seja desvinculado da busca da verdade”. Não será exagerado afirmar que Bento XVI tem sido um humilde gigante buscador e servidor da verdade, não sem os defeitos próprios dos apaixonados pela sua busca. Para o Papa “a verdade torna-nos bons, e a bondade é verdadeira”.
Quando o pensamento vacila sobre a possibilidade de alcançar a certeza da verdade e confessa o relativismo sobre factos e valores, o Papa ousa afirmar, contra a corrente dominante, que a verdade é “luz da razão e da fé” e pode ser procurada para bem da humanidade. No relativismo vê o Papa o perigo de que o homem “se renda diante da questão da verdade”, acabando a razão por “sucumbir ante as pressões dos interesses e do atractivo da utilidade”.
Na sua renúncia ele declara ter, num exercício de verdade, “chegado à certeza” da sua decisão. Não parece, pois, ter sido um acto irreflectido ou apressado, fruto de uma momentânea frustração de expectativas ou de um bloqueio sistemático do seu ministério petrino. Poderia ter renunciado em ambiente de “grande apoteose”, após a Jornada Mundial da Juventude ou do encerramento do Ano da Fé, por ele inaugurado. Não o fez, em razão da verdade e do bem da Igreja, prescindindo dos seus legítimos direitos em favor do seu sucessor. A sua renúncia não é um gesto desligado do conjunto da sua vida; é tão-somente mais um elo que encerra, numa consistência crescente, a férrea cadeia da sua paixão vital pela verdade. O Papa propôs que fizéssemos da nossa vida “um lugar de beleza”. Ele já fez a sua parte!




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