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Última lição de Bento xvi

À semelhança da última lição que é de uso acontecer nos meios académicos aquando da jubilação dos mais ilustres professores catedráticos, Bento XVI surpreendeu a Igreja Católica e o mundo com uma magistral lição de humildade, de simplicidade, de verdade e de sabedoria: o anúncio da sua renúncia ao ministério petrino, por falta do necessário vigor, quer do corpo quer do espírito.

António Brochado Pedras
27 Fev 2013

Quem, como eu, teve a feliz oportunidade de ver o Papa, pessoalmente, em Novembro do ano findo, por ocasião da cerimónia litúrgica de reflexão e oração que assinalou o encerramento da XXVII Conferência Internacional do Conselho Pontifício dos Serviços de Saúde, pôde aperceber-se da sua patente fragilidade física, bem evidenciada pela dificuldade com que se locomovia, pela debilidade da sua voz, pela perda de força anímica e até pela necessidade de, aqui e ali, ter de ser apoiado para prevenir qualquer queda acidental. Por conseguinte, o seu acto de renúncia representa, em primeiro lugar, uma verdadeira confissão da inadequação do seu estado de saúde ao exercício das exigentes responsabilidades de “governar a barca de S. Pedro e anunciar o Evangelho…”.
Mas, para além da verdade da razão apresentada, a atitude do Sumo Pontífice é um exemplo de humildade e simplicidade.
De facto, num mundo cada vez mais dominado pela soberba do poder, pela vã glória, pelo egoísmo e pela satisfação dos interesses pessoais em detrimento do serviço geral à comunidade em nome de quem é dever governar, é grato verificar como, ao mais alto grau da escala religiosa planetária, é dado um belíssimo exemplo de desprendimento das coisas mundanas!
De príncipe ou soberano vitalício de um “reino” que se estende aos confins da Terra, por vontade própria, em absoluta liberdade, Bento XVI recolhe-se do mundo, com propósito de silêncio e de oração. E sem se deixar intimidar por regras e tradições ancestrais que, ao longo dos tempos, se mostraram mais favoráveis ao exercício do cargo até ao fim da vida do que ao legítimo exercício do direito de renúncia, desde sempre previsto no Direito Canónico.
O gesto em apreço representou, finalmente, um acto de suprema sabedoria. Realmente, uma das maiores dificuldades por que os homens passam é a de saber escolher o momento certo ou adequado para sair de cena. Umas vezes por inércia ou falta de senso, outras por vaidades ou interesses pessoais, teimam muitos em persistir nos cargos indefinidamente, proporcionando espectáculos verdadeiramente degradantes e promíscuos, para, as mais das vezes, acabarem por abandonar os cargos empurrados de forma ridícula e vexatória!…
Por isso é que é de dar graças a Deus e louvar todos quantos têm a noção do valor pessoal, institucional e pedagógico de uma renúncia no momento azado. Para mais quando este gesto tem algo de revolucionário, porque desconforme com os precedentes.
A este propósito, quero dizer que discordo radicalmente de quantos opinam que, com a sua renúncia, Bento XVI pretendeu também censurar, inteligentemente, a postura do seu predecessor, que entendeu permanecer no cargo até ao fim, vencendo a dor e a morte, numa “mística de imolação cristã”. Como, também, divirjo daqueloutros que defendem a aplicação ao Papa, enquanto bispo da diocese de Roma, da norma do Código de Direito Canónico que roga aos bispos diocesanos, que tiverem completado 75 anos de idade, que apresentem a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice.
Bento XVI foi sincero e coerente quando elogiou a forma como João Paulo II, apesar das suas enfermidades e dificuldade físicas, permaneceu na cadeira de Pedro até ao último sopro de vida. O carisma, a afectividade e a força espiritual e anímica do Santo Pontífice sobrelevaram aquelas debilidades e fragilidades. E de tal modo que julgo ser irrefutável que tal atitude cristã de sacrifício e doação foi benéfica para a Igreja e própria de um verdadeiro Santo!
Todavia, o carisma de Bento XVI é distinto do de João Paulo II e essa diversidade de carismas ou de dons explica que, face a vulnerabilidades semelhantes, hajam seguido vias diferentes. Mas ambas assumidas com um mesmo propósito – o bem da Igreja – e sem renegar o carácter vitalício das funções.
De resto, tal diversidade de atitudes serve para abonar a bondade do regime vitalício do papado que não pode nem deve ser encarado como o do governo de uma normal diocese: Roma, no seu significado de cabeça eclesial, transcende o território do Vaticano e da capital de Itália e tem um inequívoco âmbito de “diocese” mundial ou de diocese das dioceses. A cadeira de Pedro não é pura e simplesmente equiparável à da de um bispo de uma qualquer diocese. Certamente que é de maior responsabilidade, de maior representatividade, de maior exigência. Mas é, sobretudo, a de um ministério que é o garante da unidade da Igreja. E isso faz toda a diferença.
No entanto, essa circunstância não justifica a aceitação do argumento de maioria de razão que alguns pretendem retirar da referida norma canónica. A singularidade e grandeza de funções podem e devem justificar a excepção à regra do limite de idade. De resto, como em qualquer monarquia constitucional, por força da especificidade e significado do cargo, o monarca é o único que, a título vitalício, pode e deve ocupar o seu cargo político. Mas isso não significa absolutismo: o exemplo de Bento XVI é disso uma evidente lição.




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