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Religião ou religiões?

A religião é uma das mais potentes forças que estende a sua energia dominadora pelos campos cosmológico e natural e pelos campos social, individual e da transcendência. Para além de uma alargada definição de religião, vou dar-me ao cuidado de procurar e descobrir a prévia e imperativa condição, sem a qual a religião é uma folha seca e perdida nas asas irrequietas e irreverentes do vento. Vou à procura desta condição para, responsavelmente, em paz, liberdade, autonomia e maturidade, escolher, vivenciar e me determinar, batendo palmas de satisfação, para esta ou aquela religião.

Benjamim Araújo
27 Fev 2013

A prévia e imperativa condição, que procuro e vou encontrá-la em mim, é a consciência existencial e transcendental daquilo que, em globalidade, somos. Sem tal consciência, todos os erros e mentiras têm a sua justificação na advogada capacidade da interpretadora mente.
Quanto à religião, questiono-me: ? Deve ou não existir? Se sim, a religião deve cingir-se a uma só ou, como é um facto, a uma pluralidade de religiões?
Em vez de estar a perder tempo com interrogações, cujas respostas são, por vezes, confusas e arbitrárias, vou antes, com a língua da mente, partir daquilo que, bem ou mal, não custa a entender ao senso comum. Vou, então, partir da larga definição de religião sem, contudo, a encarcerar nas grades da prisão.
A religião é um instrumento de que nos servimos para descobrir e estabelecer relacionamentos, progressivamente ajustados, com algo.
Quer esta definição seja ou não aceite, temos, para já, como ponto de partida, uma abertura e orientação clara para um dado fim. Qual é o fim? Penso que é descobrir e estabelecer relacionamentos não só com a verdadeira pessoa de Deus, mas também com nós mesmos e com o mundo.
Tanto quanto as labaredas da mente mo permitirem, vou libertar-me, conscienciosamente, das filosofias, teologias, tradições e costumes, dos exageros da sedutora imaginação e das braseiras do subjetivismo (emoções, sentimentos, ilusões, preconceitos, interesses, dependências?) para descobrir, em autonomia e liberdade, a fonte natural e radical da verdadeira religião.
Qual é, então, essa fonte? Sem papas na língua, respondo: – É o nosso real, objetivo e autêntico ser, gerador das suas potencialidades ativas (vida, amor, abertura, relacionamentos, paz, sabedoria?), todas atadas pelo cordão ôntico da unicidade do nosso ser.
Por exigência, entre outros, das potencialidades de abertura e relacionamentos do nosso ser, nele borbulha a religião, na sua imanência. Quer tenhamos ou não a consciência desta verdade, todos somos religiosos. Para muitos, embora a religião esteja implícita na sua vida existencial, dorme ainda no colchão do seu inconsciente.
Vou mencionar algumas ilusórias fontes da religião.
A auto-suficiência, desvio da religião, é uma presunção nossa que se levanta da ilusão fagueira de considerarmos as nossas potencialidades passivas idênticas às potencialidades ativas, dádivas de Deus. Para os auto-suficientes, exigir ou aceitar Deus é uma extravagância.
É um facto histórico, que temos a possibilidade de deslocar a religião para potestades do Cosmos ou do nosso mundo, abstraídas e falsamente interpretadas. Porque tais potestades nos dominam e delas podemos tirar alguma utilidade, nós lhes devotamos o nosso culto.
Por vezes, por um imperativo dos nossos interesses materiais, relacionamo-nos com Deus. Vemos Nele um instrumento eficaz ao dispor dos nossos motivos e, jogando com a chantagem, prestamos-Lhe culto.
Se a religião se deve cingir a uma só ou abrir-se, como é um facto, a uma pluralidade de religiões, não me pronuncio. Se por incapacidade ou medo evito pronunciar-me, delego a resposta na sabedoria, no amor e na verdade da unicidade autónoma do nosso autêntico ser. Este exige, categoricamente, de todas as religiões, uma identidade tirada da experiência religiosa e modelar, como a que Jesus Cristo teve com Deus, seu Pai.
Há uma teologia imanente ao ôntico humano que dorme, ainda aqui, na cama do inconsciente. Que teólogos a espevitarão com sabedoria e amor?




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