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Manifestações de protesto! – Um despertar de memórias

As manifestações que na última semana ocorreram no Parlamento e em lugares onde marcaram presença alguns ministros do Governo não devem ser olhadas com insensibilidade e, muito menos, deixadas no limbo da indiferença. Ao procurar as suas causas mais próximas, é fácil encontrar abundantes razões para a discórdia traduzida em estridentes clamores de protesto acompanhados pelo trotear da canção “Grândola Vila Morena”. Os portugueses estão mergulhados na mais profunda crise das últimas décadas que, a cada dia que passa, os vai tornando mais pobres, levando já franjas significativas da população a travar uma verdadeira luta pela sobrevivência.

J. M. Gonçalves de Oliveira
26 Fev 2013

É neste contexto que devemos imergir para analisar um fenómeno que não deve ser menosprezado, sem contudo restringir a sua observação aos motivos mais visíveis e concretos. Estes são bem claros nas envolvências do quotidiano que cada um enfrenta.
No início, estas demonstrações de protesto que tiveram a sua génese nas redes sociais proporcionadas pelas novas tecnologias, aparentemente espontâneas, apolíticas e sem tutela de qualquer sindicato, depressa se deixaram apropriar, sendo já evidentes os sinais dessa usurpação. Os rostos bem conhecidos que se repetem nesta e naquela ação, não raras vezes em lugares bem distantes uns dos outros, são prova visível de que a espontaneidade com que nasceram está morta. Em seu lugar haverá com certeza quem procure apoderar-se da sua autenticidade e o faça com o sentido de prosseguir objetivos bem diferentes.
Não questionando a legitimidade do direito de manifestação, será bom recordar que a validade desse genuíno princípio democrático tem de ser recíproco e que ninguém deve silenciar seja quem for, apenas porque o seu ruído é obstáculo a que mais alguém se possa fazer ouvir. Pelo que se tem vindo a observar, adivinha-se como propósito oculto destas ações calar quem tem o dever de comunicar, agitar para espalhar a confusão e, desta forma, abalar os pilares do regime democrático trazido pela Revolução de Abril.
Quase quatro décadas passadas sobre a instauração da democracia em Portugal, numa situação interna e internacional muito diferente, não será descabido relembrar muito do que se passou entre 11 de março e 25 de novembro de 1975. Desse período, que ficou conhecido por PREC (Processo Revolucionário em Curso), não podemos esquecer a insegurança generalizada que o país viveu, as ocupações selvagens de propriedades, fábricas e outros bens sem qualquer explicação, as prisões arbitrárias a que muitos cidadãos foram sujeitos, a imigração forçada de outros tantos e mais desmandos que conduziram à primeira grande destruição do aparelho produtivo do país.
Não existindo qualquer paralelo entre aquela situação do passado e a realidade do presente, não deixa de haver alguma similitude, ainda que muito discreta, nos propósitos de alguns que, nostalgicamente acalentam o sonho de reviver os tempos conturbados dessa época. Não serão maioritários, bem pelo contrário, mas se investigarmos bem esses manipuladores aparecerão aos nossos olhos com suficiente clareza.
Mais do que um simples exercício de memória, esta análise comparativa entre dois momentos tão desiguais da nossa história não pretende mais do que despertar consciências para uma realidade que ainda agora entre nós se instalou.
Ao atribuir-lhe apenas um significado restrito e circunstancial – a crise económica e financeira que o país atravessa – podemos estar a desvalorizar importantes sinais que, numa perspetiva de renovação da história, não devem ser desprezados.
Quanto à verdadeira conjuntura do país, agora mais do que nunca, exige-se aos detentores do poder que não esmoreçam nas intenções de bem comunicar e sejam capazes de o fazer em linguagem abrangente, onde em cada palavra transpareça frontalidade, justiça e verdade. Acredito que só desta forma, seremos capazes de ultrapassar com êxito e sem mais inquietações o delicado momento que atravessamos.




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