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Azar, casmurrice ou encosto?

Depois de ter escrito que os números não são neutros, chegou a confirmação ao nível da execução orçamental. Eis o motivo de voltar ao assunto, embora admitindo agora que o Governo podia não estar na plenitude das suas faculdades quando propôs e fez aprovar o Orçamento de Estado para 2013. Quando alguma coisa não corre bem a alguém, repetidamente e sem que o sujeito faça por isso, costuma dizer-se que tem encosto ou anda com encosto. Entenda-se, preso a alguém do outro mundo que por cá passou e supostamente ainda interessado no que por cá se vai passando, precisando que o encostado lhe resolva algum assunto que deixara pendente para definitivamente descansar em paz.

Luís Martins
26 Fev 2013

Mas, vamos por partes. O Governo diz-se determinado, que tem feito o que a situação do país lhe exige para não falhar nos seus objectivos de tirar o país do precipício. A verdade é que não há meio de acertar nas suas previsões macroeconómicas, mesmo com emenda pelo meio e depois de muita insistência de especialistas. Numa situação normal, dir-se-ia que o falhanço poderia acontecer por falta de sorte ou simplesmente por casmurrice. No entanto, atendendo ao sucessivo insucesso da regra das probabilidades, pendendo a estatística sistematicamente para o lado dos resultados negativos, só nos resta pensar que tudo se deve a alguma coisa estranha. Popularmente falando, a encosto. Mas de quem? Quem lhe quererá assim tanto mal ao ponto de lhe não permitir acertar algumas vezes? Todos lhe desejamos sucesso. Somos, de resto, os primeiros interessados. Será que está mesmo possesso de algum ente que não pertence à comunidade dos contribuintes portugueses, mas interessado na sua geografia e no património das suas gentes?
A verdade é que estamos a sofrer as consequências das decisões do Governo. Vivemos num tempo em que as novidades são sempre más. Não há meio das previsões nos tranquilizarem. Nada está a correr de feição e isso incomoda e preocupa todos. A realidade está muito difícil: desemprego elevado e economia a soçobrar a olhos vistos. Aos resultados conhecidos do último trimestre de 2012 e às novas perspectivas construídas para 2013, menos de dois meses após ter entrado em vigor o Orçamento de Estado para o ano em curso, juntou-se um novo dado: a execução orçamental de Janeiro correu bastante mal. 
Não considero que tenha sido “uma bomba” a publicação dos últimos resultados. Face ao enquadramento macroeconómico, já era expectável que aqueles fossem assim negativos. O Governo é que o não quis assumir, em tempo oportuno, não se sabe bem porquê. Quiçá, por não estar na plenitude das suas faculdades. Certamente que não estava em si, pois não respeitou nem ouviu ninguém. Em linguagem esotérica, estava, muito provavelmente, possuí-do. Que interesse em construir um Orçamento de Estado assente em pressupostos frágeis e desadequados?
Não sou dos que acreditam que anda encosto pelos lados do Governo. Mas que há qualquer coisa de anormal, isso há. Não se compreendem algumas acções e reacções. Ainda na semana que passou o Ministro das Finanças, sem admitir que se enganou redondamente, veio dizer que iria rever em baixa as estimativas. Ao sucedido, alguns chamaram “pirueta”, outros de “cambalhota”. Confirmou-se o que quase todos diziam e o Governo não ouvia. Que os resultados seriam mais negativos do que o Executivo admitiu no decurso da discussão do OE/2013. Por casmurrice, ou talvez não.
Se for mesmo por causa do encosto, é preciso desculpar o Governo e fazer alguma coisa para o ajudar. Isto, apesar de estarmos cada vez mais encostados à parede, com uma espada ao peito e, sabe-se agora, com uma corda ao pescoço, esticada, como nos lembrou recentemente o primeiro-ministro. Pessoalmente, e apesar de não acreditar em coisas de bruxarias e afins, o melhor é prevenir. Embora não esteja convencido de que o que está a acontecer ao Governo, com reflexos na população, seja mesmo uma questão de encosto, o melhor é fazermos um bom e competente defumadouro.




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