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Terapias da enurese (2)

Falei da enurese por ela continuar ainda a ser, para muitos, uma disfunção vergonhosa e a ser tratada de forma humilhante, desde sujeitar a criança a ser urtigada ou ao banho mágico S. Bartolomeu do Mar, uma espécie de museu medieval das doenças nervosas ou da gaguez encenado com rituais religiosos. Daí o poder-se dizer que o êxito ou o fracasso da psicoterapia da enurese não depende apenas do sujeito, isto é, da criança; às vezes, ela nem sequer é parte principal da solução. O êxito depende muito das figuras parentais, sobretudo da figura materna e também do meio ambiente familiar.

M. Ribeiro Fernandes
24 Fev 2013

Dos vários casos que já atendi, houve alguns que correram bem e outros nem tanto, devido sobretudo a interferência desse factor externo à criança, do qual ela depende. Conheci casos graves, que estavam em eminente risco de suicídio, por se sentirem desesperados e humilhados em casa. Termino esta referência com um caso real, em que a colaboração da figura materna e da professora foram decisivas.
1. O paciente, um rapaz de 10 anos e 11 meses, apresentava queixas de enurese primária nocturna. Frequentava o 3.º ano de escolaridade. O pai, recentemente falecido, era epiléptico. A mãe, muito deprimida, vestia de luto rigoroso e chorava frequentemente enquanto narrava o caso. O filho, que também vestia de luto rigoroso, ao vê-la chorar, começava também a chorar. Na escola, o rapaz isolava-se dos colegas, irritava-se facilmente e tinha dificuldades de aprendizagem; dormia mal e tinha frequentes pesadelos.
2. Analisado o caso, apresentei à mãe, na presença do filho, a proposta terapêutica:
– ultrapassar rapidamente aquele estado de luto depressivo, que estava a afectar o filho e que também ele deixasse de ser obrigado a vestir assim de luto;
– pedir à professora compreensão e ajuda pedagógica para ele;
– solicitar a realização de um E.E.G. (electroencefalograma);
– apoio psicoterapêutico até a disfunção estar solucionada.
3. A mãe aceitou colaborar. E fez-se a primeira sessão terapêutica. Passados 8 dias, a mãe voltou com o filho à consulta e informou que ele já estava a dormir melhor e que a enurese tinha desparecido. Mas, o processo de recuperação foi interrompido porque só voltou a nova consulta 3 meses depois: só nessa altura é que lhe fizeram o E.E.G, que acusava “electrogénese disrítmica”. Durante esses 3 meses, a enurese tinha voltado a acontecer e a mãe ainda não tinha conseguido ultrapassar o luto rigoroso, nem o dela nem o que impunha ao filho.
4. Insisti para se retomar o plano terapêutico. E, nesse dia, fez-se a segunda sessão. Passados 8 dias, quando ela voltou novamente à consulta, a enurese já tinha novamente desaparecido. O rapaz já andava mais calmo; a mãe tinha conseguido superar o luto; na escola, começou a conviver melhor com os colegas e a brincar com eles no recreio. Segundo informação escrita da professora, o aproveitamento dele estava a melhorar.
Veio ainda mais algumas vezes à consulta, para reforçar o processo terapêutico. A meu pedido, fez novo E.E.G e o traçado já tinha melhorado e estabilizara.
5. Porque escolhi o relato deste caso para finalizar a referência à enurese? Porque é um bom exemplo de como a colaboração mãe-filho-família-escola foi eficaz para resolver aquela situação, melhorar a integração social, melhorar a aprendizagem escolar e melhorar o nível de felicidade e alegria da criança; e porque nos dá um retracto social da enurese e confirma dois aspectos, que atrás sublinhei: a necessidade de um diagnóstico diferenciado em cada caso e a necessidade de um plano de tratamento psicoterapêutico também abrangente dos distúrbios que a ela foram aparecendo associados.




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