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Para que servem os poetas em tempo de indigência?

“Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?”. Assim começa a mais recente obra de poesia de Hélia Correia, A terceira miséria (Lisboa: Relógio d’Água, 2012). E foi com estes versos, esta pergunta e este livro que o Sindicato de Poesia começou, no dia 30 de Janeiro, no Museu Nogueira da Silva, no Espaço Maria Ondina Braga, um ciclo de leituras de obras de poetas portugueses contemporâneos. Na quinta-feira que passou, na Póvoa de Varzim, o Prémio Literário Correntes d’Escritas era concedido a Hélia Correia, pela autoria de A terceira miséria. Ganhava, assim, um renovado eco a pergunta: “Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?”

Eduardo Jorge Madureira Lopes
24 Fev 2013

O que, no livro, a interrogação encontra é, sobretudo, um drama: “A terceira miséria é esta, a de hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. /A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna / Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.”

A terceira miséria é atravessada pela dúvida: “Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?” O “ele” que pergunta no interior da pergunta de Hélia Correia é um génio da literatura universal, Johann Christian Friedrich Hölderlin, poeta alemão que viveu entre 1770 e 1843. Desde então, não tem faltado quem se esforce para acrescentar mais uma provisória resposta à interrogação sobre para que servem poetas, sejam os tempos de abundância ou de indigência.

“Para quê os poetas – perguntava um romântico, há mais de cem anos – nestes tempos de indigência?”, recordou, antes, o poeta catalão Pere Gimferrer (Segundo dietario. Barcelona: Seix Barral, 1985), para responder que a poesia é “um ofício não muito apetecível”, que “mostra tendência para a modorra” e que “nem sequer é seguro que possa competir com êxito com o resplendor instantâneo de uma pintura ou de um filme de aceitação, ou, num outro sentido, com a sedimentação sinuosa e lacustre de uma novela”.

Mas, acrescenta, “apesar de tudo, a memória retém alguns poemas; ou, simplesmente, a impressão – ténue, indelével – da recordação da sua leitura. São instantes que vivemos; e, quiçá, é aqui – na perenidade de uns poucos instantes precisos – que teremos de buscar o porquê do poema”. Lembra Gimferrer que “o máximo poeta dos chamados ‘crepusculares’ italianos do começo do século XX, Sergio Corazzini, descreveu este estado: “Santità delle sere / che non hanno domani”, quer dizer, a santidade dos entardeceres que não têm amanhã. Este instante de visão nítida – o poema – tem a claridade transitória e inusual do poente que brilha e morrerá como todos nós”.

Escreve Hélia Correia: “Essa beleza que era também espanto / Pelo dom da palavra e pelo seu uso / Que erguia e abatia, levantava / E abatia outra vez, deixando sempre / Um rasto extraordinário. Sim, a hora, / Dois séculos atrás, em que uma ausência / E o seu grande silêncio cintilaram / Sobre a mão do poeta, em despedida.”

“A poesia é a criação de objectos de arte cuja matéria é a linguagem”, explica o poeta espanhol Antonio Gamoneda (El cuerpo de los símbolos. Huerga & Fierro, 1997). Há aqui, diz ele, “uma obviedade importante. Quanto à espécie artística, parece claro que se trata de arte do tempo; melhor ainda: de uma arte da memória”. Para Gamoneda, a memória “é sempre cons-
ciência de perda (recordo o que já não tenho ou o que já não é); consciência, portanto, de consumação do tempo correspondente à minha vida e, por isto mesmo, consciência de ir para a morte.”

E “quando se olham de frente / os claros olhos vertiginosos da morte, / dizem-se as verdades: / as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades”, garante Gabriel Celaya no poe-
ma “A poesia é uma arma carregada de futuro”, que Paco Ibañez voltou a cantar recentemente, dizendo que bem enganado esteve ao não a interpretar, desde há bastante tempo, por ter julgado que os versos se tinham desactualizado. Uma vez mais, impõe a urgência que se diga: “Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam / dizer que somos quem somos, / nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento. / Estamos a tocar o fundo.”

Contou no Público de sexta-feira o jornalista Sérgio C. Andrade que Hélia Correia apresentou A terceira miséria como uma homenagem à Grécia e como “quase um pedido de socorro” perante “a pressão impensável” que este país, tal como o nosso, está a sofrer. Há, na obra, “um grito” e há, também, uma ideia de como e por onde seguir, uma proposta de sentido para a poesia: “De que armas disporemos, senão destas / Que estão dentro do corpo: o pensamento, / A ideia de polis, resgatada / De um grande abuso, uma noção de casa / E de hospitalidade e de barulho / Atrás do qual vem o poema, atrás / do qual virá a colecção dos feitos / E defeitos humanos, um início.”




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